Despertar – Parte IV

Olá meu bom leitor.

Como havia dito no último post, aqui esta a quarta e penúltima parte do conto “Despertar”. Muitos estavam me perguntando o que estava acontecendo realmente com Luís, pois bem, aqui existe toda a explicação.

Lembrando que a última parte iriei postar já na próxima semana, então assim que terminar esse conto irei dar inicio a outro que eu já tenho pronto.

Para quem não leu as outras partes ou quer relembrar ai vai os links:

Parte I

Parte II

Parte III

Tenha um ótimo ponto para ler!

Despertar – Parte IV

Luís apenas pensava que ego poderia ser aquele dragão. Mesmo sentindo medo, ele não conseguia tirar os olhos do grande lagarto.

– Muito bem, vamos aos negócios – disse o dragão com uma voz grossa e imponente – Quanto mais horas passarmos aqui mais fortes os outros egos ficarão.

 “Quanto mais horas?”.  Pensava Luís impaciente, mesmo com sua percepção bastante avariada ele tinha percebido que o sol havia se posto no mínimo umas quatro ou cinco vezes.

– Me diga, como assim ‘quanto mais horas se passarem’? – retrucou Luís ainda mirando os olhos do dragão – pelo que pude perceber, já se passou, no mínimo, uma semana agora.

– Claro que são horas – respondeu o dragão assim que Luís fechou a boca – Você está neste estado de consciência a pouco menos de duas horas.

– Me desculpe, mas preciso discordar. Desde o momento em que estava no ônibus e percebi que todos estavam mortos, melhor nem sei ao certo o que há com eles, acredito que já se passou quase um mês – disse aumentando o tom de sua voz gradualmente.

– Luís me escute com calma – disse o dragão friamente – Irei dizer de uma forma simples para que você me entenda – fez uma pausa, espremeu-se um pouco para entrar mais no escritório com seu corpo tocando o chão e o teto. O seu enorme focinho estava a pouco menos de um palmo de Luís – Você está dormindo sentado dentro do ônibus nesse momento.

Luís conseguia sentir o bafo quente que saía da boca do dragão e as palavras foram entrando por seus ouvidos, como dançarinas de um bordel, fazendo estardalhaço em sua mente – Eu estou dormindo? – perguntou com a voz trêmula enquanto as palavras faziam ecos em sua mente.

– Sim – Luís apenas conseguiu ouvir essas palavras antes de desmaiar.

Após um longo período desacordado, Luís foi abrindo os olhos vagarosamente, sentia-se zonzo e com os pensamentos lentos, não conseguia ver claramente apenas conseguia sentir um forte vento batendo em todo o seu corpo. “Que dia estranho eu apenas queria trabalhar normalmente” pensou Luís enquanto o vento forte castigava lhe o corpo.

Sentiu que estava deitado sobre um local molhado e estranho, que não era totalmente horizontal e estável. Além de sentir que era um local totalmente irregular, percebeu que havia várias pontas que incomodavam todo o seu corpo. Ao levantar uma das mãos para achar um ponto para apoio e se levantar, sentir que não era apenas água que deixava o chão úmido, era na verdade uma mistura de muco grosso e frio, conseguiu recuperar a visão o suficiente para ver que ao levantar a mão o muco fazia uma liga que ia do chão a palma de sua mão, afinando gradativamente ao levantar de sua mão.

Com o passar do tempo seus sentidos foram voltando e Luís foi se situando, conseguiu ver que não estava realmente deitado em um chão e sim deitado nas costas do dragão, as costas não eram muito largas, mas ele conseguia ficar deitado entre as asas sem cair. Ao seu lado, podia vê-las batendo, podia ainda ver o chão passando apressadamente a metros de distância. As ondulações que incomodavam seu corpo na verdade eram as escamas do lagarto e o muco de um tom verde quase transparente que encobria toda a pele escamosa possuía um odor forte uma mistura de enxofre com carne queimada.

– Onde você esta me levando? – perguntou Luís enquanto erguia-se e sentava entre as duas asas batendo.

– Para a sua casa – respondeu o dragão, e assim os dois foram cruzando os céus do planalto central até sua residência situada em Taguatinga, uma cidade-satélite próxima ao Plano Piloto.

Assim que pousaram na frente de sua residência, Luís saiu de cima das costas do dragão, e, coberto pelo muco, perguntou:

– Por que você não me devorou como devorou a Ganância?

– Porque simplesmente não tenho esse propósito – respondeu calmamente enquanto se deitava e se enrolava como uma cobra – eu sou a personificação do seu subconsciente.

– Meu subconsciente? – e assim Luís sentou em frente ao dragão e escutou atentamente suas palavras.

O dragão se acomodou e lançou pequenas labaredas de fogo no chão para sentir-se mais confortável. Em seguida começou a explicar o que acontecia pausada e calmamente:

– Luís você está em um estado de sono profundo induzido, sendo assim seu corpo está em repouso, mas a sua mente está em total atividade – fechou seus grandes olhos amarelados e continuou – você está vivendo um apocalipse particular.

– Apocalipse particular? – Luís soltou as palavras com a voz trêmula.

– Exatamente, meu caro, neste exato momento cada homem e mulher da terra está vivendo o seu próprio apocalipse, travando lutas contra os seus desejos íntimos e seus piores inimigos.

Luís começava a sentir frio por causa do muco que cobria seu corpo, o frio misturado as informações que o dragão trazia e unido a tudo o que já havia acontecido até ali lhe deram uma enorme dor de cabeça. Antes que conseguisse colocar um pouco das ideias em ordem sentiu um enorme bafo quente atingi-lo, o bafo foi tão forte que o fez cair para trás, mesmo estando sentado, quando conseguiu sentar novamente notou que o dragão tinha levantado apenas sua cabeça e o olhava fixamente.

– O frio passou? – perguntou o dragão.

Com essa pergunta, Luís percebeu que estava seco. O muco úmido que lhe cobria o corpo havia evaporado e ele estava agora em uma temperatura agradável.

– Obrigado – respondeu Luís enquanto levantava – se você é o meu subconsciente como diz que é – agora andava na direção do dragão – como sabe que isso tudo que esta acontecendo comigo também está acontecendo com outras pessoas?

– Finalmente você começou a ver a grandiosidade do que está acontecendo – havia um tom de satisfação na voz grossa do dragão – começarei dizendo que tudo isso é uma obra de Deus. A humanidade está um tanto quanto perdida.

“Deus?” Luís pensava como isso era tão absurdo de se ouvir, começou a rir freneticamente, somente quando começou a se acalmar pode continuar.

– Agora tenho certeza que você não é quem diz ser – disse com um tom de deboche – se realmente fosse o meu subconsciente saberia que eu sou ateu. E outra coisa acredito mais que fiquei louco e que devo estar agora preso em um manicômio do que presenciando um apocalipse divino.

O dragão não esboçou nenhuma reação de desaprovação ao que Luís disse, apenas levantou, sustentando o olhar de Luís, e com seu tom de voz grosso e imponente disse:

– Eu sei que você não acredita em uma personificação de Deus – disse, levantou e deu um passo em direção a Luís enquanto o mesmo dava um passo para trás – sei que você não está em um manicômio, pois ao contrário de você tenho percepção para sentir seu corpo físico. Eu sou o seu subconsciente e não duvide de mim – deu outro passo a frente enquanto Luís dava outro para trás e aumentou o tom de voz gradativamente – então eu sugiro que você fique quieto e me deixe terminar de falar de uma vez – o dragão irritou-se tanto que avançou de uma vez para cima de Luís que pode notar fagulhas de fogo saindo nos cantos do focinho.

Luís espantou-se com a reação do dragão, realmente o que ele disse era verdade, ele não acreditava em uma personificação de Deus, e outra coisa que o dragão disse já o havia incomodando desde quanto saiu do ônibus, ele realmente não sentia o corpo, sofrera um acidente de moto no qual foi arremessado, mas não havia tido nenhum ferimento. A Ganância colocou a mão dentro de seu corpo, tirando o frio ou calor que sentia e seu corpo não respondia a outras ações. Nem mesmo fome ou sede ele sentiu por todo aquele período.

– Como eu estava dizendo – continuou o dragão com um tom de voz mais ríspido – quando eu disse Deus não me referi a Ele como um ser sentado em uma poltrona suspensa no universo observando e controlando tudo, e sim como uma energia que liga todos a tudo. Uma energia universal que faz tudo acontecer, essa energia não possui uma consciência plena, longe disso Luís, essa energia trabalha em busca de um único proposito, o da busca do equilíbrio natural.

– Realmente você é o meu subconsciente – disse Luís antonino – tudo isso que você disse é o que eu penso, mas nunca tive coragem de dizer a ninguém. Acreditava ser melhor dizer que sou ateu do que entrar em uma conversa profunda sobre o que é Deus.

– Agora esse medo é irrelevante – cortou o dragão – e também não pretendo entrar em uma conversa filosófica sobre o que é Deus com você, o que lhe disse é o suficiente para que você entenda o que Ele é – Luís acenou positivamente com a cabeça – o que realmente interessa é o que Deus está fazendo para buscar o equilíbrio da humanidade.

– Sim, é claro – respondeu Luís que agora abandonara por completo a ideia de que estava louco e preso em algum sanatório ou algo do tipo, o dragão possuía uma segurança inabalável naquilo que dizia e isso o dava um pouco de conforto – e o que eu devo fazer nesse apocalipse?

– Antes de dizer o que você deve fazer, preciso explicar o motivo de tudo isto estar acontecendo.

E assim o enorme dragão começou dizendo a Luís que a humanidade estava corrompida e que não havia mais nenhum caminho que o homem pudesse tomar para evitar sua própria destruição ou a destruição do planeta. A corrupção que foi destruindo a humanidade nos últimos séculos começou internamente, de dentro para fora de cada indivíduo.

O homem criou seus próprios demônios. Nos primórdios dos tempos, ao observar a ação da energia que busca o equilíbrio universal, designaram-a como o bem de tudo e nesse raciocínio primitivo e precário cometeram seu pior erro. Disseram que os males, os sofrimentos e as tormentas que eles próprios criaram eram demônios ou energias negativas.

Um erro simples, mas de consequências gigantescas, a energia universal não está procurando ou vendo se o homem está sendo bom ou mal. Até porque o conceito de bom ou mal depende demais da perspectiva de quem observa. Por esse motivo, a energia universal busca o equilíbrio, busca criar oportunidades e situações para que o homem e todas as outras criaturas da terra ajam para que o mundo e o universo continuem funcionando. Os demônios que o homem gosta tanto de culpar são, na verdade, seus próprios egos forçando- os a agir contra a energia universal.

A energia universal, com o passar dos séculos, foi subjugada pelos egos humanos. Os egos guiaram a humanidade para a destruição da natureza, a criação de guerras, a separação de povos e a perpetuação da ignorância coletiva da humanidade e todo esse mal foi atribuído a demônios que não existem.

Por não permitir a destruição da humanidade, a menos que seja por um propósito maior, a energia universal foi forçada a agir de forma radical. Como todos os seres se ligam subconscientemente a energia universal e ela a todos de uma forma onipresente. A energia induziu todos os seres humanos (recém-nascidos, crianças, adultos e velhos) a um estado de sono induzido para que cada um fosse regido por seus egos maléficos enfrentando-os para finalmente ver a verdade da vida.

Mas como a energia universal apenas cria oportunidades para que os seres as sigam ou não de acordo com o seu livre arbítrio, ela não pode decidir nada pelos outros. Pode apenas criar situações e oportunidades para que a humanidade (nesse caso) continue no caminho certo para manter o equilíbrio universal. Mas os egos humanos são fortes e controladores, e com o passar do tempo a humanidade, guiada por eles e suas decisões medíocres, foram abalando o equilíbrio universal.

Por não ter mais outra opção ela fez isso com toda a humanidade. Neste momento cada um no planeta está lutando contra os egos que os dominaram por toda a vida. Nessa luta, o homem apenas poderia ter duas saídas: matar seus egos ou ser morto por eles.

Ao matar os egos em um prazo de vinte e quatro horas, todos acordarão com uma consciência mais ampla da vida e do que verdadeiramente são. Para que, aos poucos, voltem a trilhar o caminho do equilíbrio. Caso a pessoa morra, ela perderá a consciência e não acordará mais, a menos que seja morta por um ego muito forte e desenvolvido, que poderá tentar controlar o corpo e assim verdadeiramente viver.

– Então isso é realmente um apocalipse – disse Luís após ouvir toda a explicação do dragão e sentir um enorme vazio dentro de si – mas eu tenho algumas dúvidas ainda.

– Me pergunte que eu irei responder.

– Primeiramente, como você, sendo o meu subconsciente, sabe de tudo isso?

– Luís, como eu havia dito, a energia universal se liga aos seres vivos pelos seus subconscientes, por isso eu sei o que está acontecendo e, por consequência, os outros egos também. Assim sendo nesse momento você esta tanto tendo que lutar contra os seus egos, mas eles também estão lutando entre si. Por isso você se sente tão confuso às vezes. De agora para frente é um ego matando o outro.

– Sim entendo um pouco, mas me diga porque os egos estão lutando entre si e não contra mim?

– Simples Luís, você possui centenas de egos, e a grande maioria são egos fracos, pouco desenvolvidos. Eles preferem lutar um contra o outro, pois se forem enfrentá-lo certamente perderiam.

– Então nesse caso eu irei confrontar os meus egos mais fortes – disse Luís com uma voz fraca e desolada – e até posso imaginar quem são.

– Isso é verdade, mas acredito que os outros egos mais fracos se mataram e você terá apenas que enfrentar os mais fortes e presentes em sua vida.

– Serão piores que a Ganância? – perguntou Luís ao dragão com um sentimento de medo.

– A Ganância era um ego que sempre esteve presente em sua vida, mas existem outros egos que o manipularam menos, mas com intensidades bem mais fortes – respondeu o dragão seriamente – se serão mais fortes ou mais fracos que a Ganância isso eu não sei informar.

– Você sabe onde vou encontrar o próximo ego? – perguntou sem querer saber a resposta.

– Dentro da sua casa.

Luís olhou por cima do dragão e observou sua casa, aparentava estar normal, mas aparentar não é ser – Qual ego encontrarei ali dentro? – perguntou ele sem desviar o olhar da casa.

– Não é tão simples saber qual ego você encontrará Luís – respondeu o dragão fechando novamente os olhos – você deverá entrar e saber por si próprio.

Luís então percebeu que deveria reunir toda sua coragem e determinação e entrar em sua casa. Após um tempo de concentração e várias respirações profundas ele deu o primeiro passo em direção a casa.

Ao chegar à frente do portão e colocar a mão na maçaneta, o sol já começava a lançar os primeiros feixes de luz no horizonte. Ele parou, observou o nascer da luz e virou o rosto para trás soltando a maçaneta.

– Subconsciente – disse engasgando a voz na garganta – se o ego que está aqui dentro me matar – fez uma pausa com a angústia nos olhos – é certeza que ele dominará meu corpo?

– Se ele matar os outros egos que ainda viverem dentro do prazo de vinte e quatro horas é bem possível – respondeu o dragão sem nem ao menos abrir os olhos.

Luís sentia o desespero aumentar dentro de si – Você não se preocupa se eu morrer ou se algum ego controlar o meu corpo? – perguntou gritando com a voz carregada de angústia e desespero. Neste momento o sol paralisou a leste com suas lanças de luz e a oeste, com o desaparecimento da lua, terríveis nuvens de tempestade se formaram durante os gritos de Luís. Quando ele terminou sua pergunta aos gritos e com o olhar vibrante para o dragão um grande raio cortou o céu.

– Está vendo, esse mundo é sua mente e ele corresponde aos seus instintos – disse o dragão ainda deitado e com o olho direito meio aberto olhando o céu – agora me diga você, do que adianta eu me estressar sendo que você é quem deve matar os egos, e a minha vida é a sua vida, você morre eu morro, se você vive eu vivo, não se lembra do que eu disse? Eu sou o seu subconsciente.

– Certo – disse Luís baixo o suficiente apenas para ele mesmo ouvir – então está tudo em minhas mãos – e assim ele entrou pelo portão de grades e atravessou o pequeno quintal de frente, ao chegar na porta de casa deu mais uma olhada para trás e reparou que o dragão  encontrava-se deitado apenas esperando que Luís fizesse o que era esperado que ele fizesse – nunca pensei que entrar em casa fosse tão difícil – disse com a voz embargada de medo.

Foi abrindo a porta aos poucos e com os olhos fechados, tinha medo de ver em que tipo de alucinação sua casa havia se tornado ou que outra coisa poderia estar acontecendo ali dentro, ao abrir os olhos assustou-se.

– Esta tudo tão – disse com a voz descompassada e os olhos arregalados por não acreditar no que via – tudo tão… – não tinha palavras – tão… – ouvia o som tocando – tã… – e por fim viu sua mãe passando ao fundo do corredor que ligava a sala de estar à cozinha da casa – normal.

– Voltou mais cedo do serviço hoje filho? – a voz feminina vinha da cozinha – ainda nem coloquei as panelas no fogo para o jantar.

Luís entrou fechou a porta e foi em direção à cozinha.

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