Crítica de Livro | Araruama – O livro das sementes

Olá, meu bom leitor.

Hoje trago para você minha experiência de leitura de “Araruama – O livro das sementes” do autor nacional Ian Fraser, publicado pala editora Moinhos.

Araruama é o primeiro de uma série, então ele é bem aquele livro de introdução de um universo fantástico. Nele somos apresentados a toda mitologia e aos principais personagens que iremos acompanhar por toda a aventura que ainda será narrada nos próximos livros. Neste primeiro volume Ian Fraser fez seu trabalho de forma competente nos entregando um livro de apresentação o mais completo possível.

O livro das sementes é justamente o que seu subtítulo diz, todas as sementes são lançadas no terreno fértil do que uma história de fantasia precisa: personagens bem elaborados, política, magia, seres extraordinários e o que diferencia este livro de todos os outros: mitologia indígena.

Tenho que confessar que o que mais me deixou animado para a leitura foi o fato do autor abordar uma temática que não é usual em histórias de alta fantasia. Foi corajoso e muito preciso, isso mostra o quão importante é que nossos autores e autoras tragam a brasilidade para nossa literatura, mitologia indígena brasileira não é chata e tão pouco monótona, e aqui neste livro você encontrará vários motivos para continuar a leitura.

O início da história é praticamente uma gênesis sobre a criação da Ibi (terra) e de Monâ, a mãe do tempo e de todas coisas. Aí começamos a entender que a história se passa em um tempo tão remoto que muitas coisas ainda não tem nome, onde a própria presença da humanidade é recente e muitos dos nossos sentimentos atuais ainda não foram concebidos pelo coração corruptível do homem. Somos apresentados a sete tribos, suas particularidades e o que as tornam diferentes entre si. A ambientação foi um dos pontos mais altos do livro, conseguimos sentir o peso das ações dos personagens no ambiente em que eles vivem e as marcas que mais tarde mostrarão suas consequências.

Se houvesse um subtítulo do subtítulo seria: “livro das referências”. Vou soltar algumas referências dignas do meme do Capitão América que eu peguei durante a leitura: chuva ininterrupta que dura anos, uma tribo onde as pessoas moram em tocas confortáveis, um jogo que usa bola e se marca pontos lançando-a em três arcos e várias outras que vou deixar você descobrir. Isso não quer dizer que as referências foram mal usadas, todas foram muito bem alocadas e muito bem encaixados na narrativa. Eu vi as referências mais como uma singela homenagem aos autores que influenciaram a escrita e a vida do autor.

Houve alguns momentos no início do livro em que eu me perdi na leitura, não por ser mal escrito, mas sim por conta de todas as expressões usadas. O autor utilizou o mesmo mecanismo de criação de diálogos usado pelo Anthony Burgess em “Laranja mecânica”, onde termos e nomes específicos para determinadas situações e ações não são explicados ao leitor, que deve pegar seus significados pelo contexto. Existe uma estranheza inicial, mas depois de um tempo e com o poder do seu exanhé será fácil para entender tudo. E caso fique muito na dúvida, existe um glossário ao final do livro com o significado das expressões, porém eu não aconselho o seu uso, pois parte da experiência de ler este livro está na capacidade de entender estas expressões.

*ALERTA DE SPOILER*

Uma das poucas coisas que não me agradou na leitura foi o arco narrativo deste primeiro livro. Todas as construções giram em torno do treinamento de jovens mitanguariní, nome dado aos aprendizes que se tornarão guerreiros/sábios/caçadores após o ritual do Turunã e que após este teste se tornarão guariní. Toda a narrativa gira em torno de personagens de tribos diferentes que são preparados para este ritual. De forma paralela o autor vai construindo todo os arcos da série e solta os ganchos narrativos que darão ritmo a toda a saga, como um assassinato, a descoberta do ouro, desavenças entre pai e filho, romances e etc. Para iniciar o ritual de passagem todos os mitanguariní devem ir para uma tribo onde se encontra o templo voltado a deusa Monâ. Este primeiro livro se encerra com todos os jovens que foram apresentados se conhecendo a véspera do início do Turunã. Ao meu ver, este é um ótimo final para uma peça audiovisual, porém para um livro eu ficaria mais feliz em ver o início do Turunã como prometido na própria sinopse e durante a leitura gerando uma expectativa que não poderia ter ficado somente para o próximo livro.

No geral, este é um livro que deve ser lido, não só pela riqueza da mitologia, mas também por ser muito bem escrito. Ian Fraser nos entrega uma grande promessa para a literatura de alta fantasia brasileira com Araruama, e acredito pelo que li, que os próximos volumes da saga serão tão bons quanto este.

Sinopse

“Uma aventura sobre um mundo esquecido.
Esta é uma história de quando o tempo ainda era cru.
Um tempo em que as grandes araras coloriam o firmamento.
Um tempo em que o fantástico ainda corria pela mata verde. Nas tribos que fazem parte do mundo conhecido, todas as crianças recém-nascidas passam pelo ritual do aman paba. As Majé, curandeiras capazes de enxergar a linha que costura o tempo, dizem quanto tempo as crianças irão viver naturalmente, assim estabelecendo seus papéis na tribo.
O Livro das Sementes  acompanha o crescimento e o treinamento de cinco crianças, que juntas irão ter que provar sua força e honra durante a jornada do Turunã.
Esta é a história dos homens que criaram Araruama”.

Livro: Araruama – O livro das Sementes
Autor: Ian Fraser
Editora: Moinhos
Páginas: 218

Capa: 9,00
Continuidade: 8,00
Personagens: 9,50
Cenários: 9,50
História: 9,00
Narrativa: 9,00
Diálogos: 9,00
Revisão: 8,50

Nota Final: 8,93 – Muito Bom

Tenha um ótimo ponto para ler!

Paulo Souza

Você irá gostar de ler também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *