De pombos a Charlie

Olá, meu bom leitor.

Hoje depois de um hiato de mais de três meses sem conseguir escrever trago um texto da maneira que gosto de expor opiniões, em forma de conto.

Espero que gostem.

Tenha um ótimo ponto para ler!

De pombos a Charlie

– Quanta babaquice isso – disse um idoso sentado no banco da praça batendo a mão no jornal que lia e tremendo o queixo ao pronunciar – no meu tempo as coisas não eram assim.

– Sempre a mesma coisa não é mesmo – disse o seu companheiro jogando migalhas de pão no chão, mas nenhum pombo vinha comer – você é um velho ranzinza, isso sim.

– Me respeite Bartolomeu, sou mais velho que você.

– Acredito que o mais velho desta praça – e deu um sorriso onde se via a gengiva e dentes ausentes – todo dia a mesma coisa, “no meu tempo aquela menina não usaria algo tão curto” ou “no meu tempo as crianças não gritavam tanto”. Ora Horácio seu velho rabugento.

Horácio limitou-se a mexer o queixo e realocar a dentadura na boca e voltou a sua leitura, enquanto Bartolomeu continuava a jogar migalhas no chão.

Enquanto um lia em silencio e resmungava baixo de lábios fechados o outro jogava migalhas no chão com um sorriso débil olhando aos redores procurando um pombo, mas todos os pássaros se mantinham a distancia.

– Já lhe disse que este pão está mofado Bartolomeu – disse Horácio sem tirar os olhos do jornal – nem pombo burro quer comer esse seu pão dormido.

– Ainda não sei o que me faz ser seu amigo – Bartolomeu disse rindo olhando para os pombos em grupo do outro lado da praça – eles ficam longe é de você, acham que o seu mal é contagioso.

– Eu que não sei porque ainda converso com você – disse ele resmungando enquanto virava a página.

– Eu já falei que tenho dois propósitos na vida para você?

– Lá vem você com essa conversa novamente – Horácio fechou o jornal e colocou sobre as pernas – é bom que seja rápido estava no meio de uma reportagem sobre um tal de Charlie que foi assinado e agora todo mundo quer ser ele. O que eu acho uma babaquice.

– Aposto que você leu tudo errado novamente, além de rabugento é cego. Mas voltando a minha sina,

os meus dois propósitos de vida.

– Tudo bem, diga logo o seu problema comigo e com aqueles pombos.

– Então, eu não posso morrer antes de fazer essas duas coisas, dar migalhas para aqueles pombos e fazer você entender uma noticia. E acho que vou fracassar miseravelmente nas duas, ou aqueles pombos voam para outra praça ou você morre primeiro.

– Depois eu que sou ranzinza – Horácio mastigou a dentadura novamente – claro que eu entendi o do que se trata, esse idiota do Charlie fez uma piada de uma religião e os caras mataram ele.

– É uma revista, eu vi a noticia ontem quando o meu neto me mostrou na internet, Charlie é uma revista francesa Horácio. E não foi uma piada foi um insulto contra a crença de outra pessoa.

– Você está doido Bartolomeu, não tem como matar uma revista Charlie é uma pessoa, um cartunista – Horácio mastigou com força a dentadura – só nesses seus tempos modernos mesmo para se poder matar uma revista, no meu tempo essas coisas não existiam.

– Neste seu tempo você raciocinava Horácio, hoje só reclama. Mas enfim esse tal de Charlie que é uma revista, insultou uma religião, e algumas pessoas extremistas mataram os cartunistas – jogou mais um bocado de migalhas no chão – ninguém tem o direito de matar o outro por se sentir insultado e eu ensinei isso ao meu neto ontem.

– Mas eles foram insultados não é mesmo, eu já vi uma guerra começar por algo assim.

– Acredito que você viu umas dez, no mínimo Horácio, velho do jeito que é. Mas voltando ao assunto, é esta a problemática da questão, a revista diz que é liberdade de expressão fazer essas piadas de mal gosto e as pessoas que se sentem insultadas dizem que é crime insultar alguém de graça.

– Mas claro que é Bartolomeu, apenas eu que sou diplomático o suficiente para aguentar você me chamar de velho ao ponto de ter visto dez guerras. Eu exijo mais respeito.

– Eu te dou respeito Horácio, apenas brinco como um velho amigo.

– Posso estar velho e ranzinza mas reconheço isso em você Bartolomeu, e é isso que falta nesse pobre Charlie, aprender a brincar como amigo, saber até que ponto apiada é sadia.

Os dois se olharam e voltaram a sua rotina, Horácio lia seu jornal e Bartolomeu jogava mais migalhas no chão.

– Sabe Horácio – disse Bartolomeu enquanto jogava as migalhas com um sorriso débil encarando o grupo de pombos – acho que o mundo poderia ser como a minha relação com aqueles pombos.

Horácio resmungou algo inaudível e o olhou por cima do jornal e disse – Diga como se não vou infartar só em pensar.

– Hora veja bem – Bartolomeu jogou mais um punhado de migalhas no chão – todas as manhãs eu venho e jogo pão para eles comerem, mas eles nunca vem comer enquanto estou aqui, mas quando me levanto e me afasto eles vem e comem tudo.

– Talvez eles não queiram ver essa cara velha enquanto fazem uma refeição.

– Ou achem que o seu mal é contagioso Horácio, mas enfim o mundo poderia ser mais assim.

– Acho que o meu coração vai parar, que pensamento mais sem propósito Bartolomeu.

– Não é sem propósito, analisa a situação e volta a raciocinar Horácio, eles estão lá e eu aqui, eu faço algo bom para eles e eles para mim, eu dou comida e eles me dão uma distração, ninguém impõem nada a ninguém, sabemos da existência um do outro e respeitamos os nossos espaços.

– Vou continuar a ler o meu jornal que é melhor.

– Mas é isso mesmo Horácio, você vai voltar a ler o seu jornal e eu a jogar migalhas aos pombos. Respeitamos nossas diferenças e sabemos até onde devemos ir para não desrespeitar o outro.

– Você está caducando Bartolomeu.

– Não seu velho ranzinza, estou sendo sábio na velhice – deu seu maior sorriso débil enquanto jogava migalhas no chão.

– Que seja.

Os dois velhos amigos permaneceram mais alguns minutos, um lendo o seu jornal e o outro jogando migalhas, levantaram penosamente trocaram seu seus últimos insultos amorosos do dia e partiram para suas casas. Os pombos vieram comer depois, não gostavam de comer vendo o velho com cara de trouxa e do outro que parecia ter um serio problema intestinal por estar sempre com a cara amarrada, e se eles também ficassem com prisão de ventre?

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