Diário de John Robinson Miller – 1942 (Primeiro Trimestre)

Olá meu bom leitor.

Hoje vou postar uma historia que para mim esta sendo um desafio, pelo simples fato do tema a ser abordado ter sido indicado por um grande amigo, que é o seguinte:Diários de bordo de um operador de rádio de um bombardeiro B-25 durante a 2° guerra.

Um tema muito complexo a ser abordado, então resolvi fazer um seriado.

Espero que goste do texto, para a próxima semana eu irei postar a continuação.

Tenha um ótimo ponto para ler!

 Diário de John Robinson Miller – 1942 (Primeiro Trimestre)

Janeiro, 04

A carta chegou há uma semana, mas todos os dias fico encarando-a. Ainda não acredito que fui convocado para a guerra.

Hoje, no porto, minha mãe chorou de um jeito que eu nunca vi e meus irmãos estavam com os olhos vermelhos e inchados. Também, desde que a carta chegou, eles choram todos os dias achando que estou indo para a morte como o nosso tio.

Antes de subir no navio olhei para trás e me bateu uma vontade de correr e sumir no mundo. A mochila que me deram pesava mais a cada passo dado em direção ao píer, mas era inútil correr naquele ponto. Eu estava bem no meio da fila, que era escoltada por soldados.

Assim que embarcamos apenas nos deram tempo de colocar nossas mochilas nas cabines e voltar para o convés. Hoje descobri que não vou gostar de ser um militar. Os gritos e os insultos só para que todos ficassem em ordem foram desnecessários, qualquer criança de seis anos sabe ficar em fila. O pior foi ter que tentar ficar parado enquanto o navio balançava para ouvir algum capitão ou algo do tipo falando e gritando na frente de todo mundo.

Janeiro, 11

Já faz uma semana desde a última vez que vi terra firme. Uma semana que nada para no meu estômago. Uma semana que não durmo direito.Uma semana que sou obrigado a limpar o chão todos os dias ouvindo gritos de que isso faz parte do meu treinamento. Uma semana que só vejo homens e, sinceramente, estou ficando entediado e cansado de só ver pintos na hora do banho.

Ouvi uma conversa no corredor de que ainda devemos ficar mais uns dois ou três dias navegando até chegarmos à costa do Reino Unido, ou seja, mais alguns dias nesse tormento. O que me anima um pouco é poder ler sempre uma carta que a minha mãe me deu antes de eu ir embora.

Na cabine onde durmo, que por sinal é perto da casa de máquinas e faz um barulho infernal dia e noite (que é outro motivo pelo qual não consigo dormir bem à noite), existem quatro camas. Bem, camas não, estão mais para redes do que para camas. Eu divido esse cubículo com o Adam Scotch, um filho de lenhador de dezenove anos. William sem sobrenome, um morador de rua de vinte e nove anos, e o Anderson White um cara de nariz achatado que foi o que mais me identifiquei, ele tem vinte e dois anos. Ali, mesmo sendo o mais novo, com os meus dezoito anos, me sinto o mais inteligente por ser o único a saber ler e escrever.

Mas ainda assim, o meu melhor companheiro é esse diário.

Janeiro, 30

Depois que desembarquei no Reino Unido minha rotina mudou do tédio e limpar o chão para a de adrenalina e comer lama. O treinamento está me matando e eu não sei se aguento mais isso. Todo dia sendo acordado por uma corneta barulhenta e desafinada, comer ouvindo gritos, treinar ouvindo gritos, ficar parado ouvindo gritos, andar ouvindo gritos enfim, viver ouvindo gritos. Se isso for por causa da guerra acho que será bem provável que morra ouvindo alguém gritar comigo “você morreu errado! Volte, dê mais dez voltas com o fuzil e então morra direito!”.

O William Sem Sobrenome conseguiu acertar o próprio pé no treinamento de tiro. Um grande e estúpido nova yorkino. Tirando isso, meus dias tem sido a mesma coisa, uma gritaria só.

Amanhã partiremos para a França para marchamos até uma base próxima à fronteira da Itália. Dizem que estamos prontos para o combate, mas o fuzil continua sendo muito estranho para mim e toda vez que tenho que dar um tiro fecho os olhos esperando e rezando para que a arma não exploda nas minhas mãos.

White todos os dias diz que quer matar um nazista para se sentir vingado pela morte do pai, eu concordo balançando a cabeça, mas no fundo tento pensar em não matar ninguém.

Fevereiro, 7

Não tomo banho há cinco dias, os campos franceses são lindos, grandes campos vastos de fazer a vista se perder no horizonte, lindos e assustadores, lindos pela beleza da natureza, mas assustadores, desertos, passamos por casas e cabanas que eu perdi as contas, todas abandonadas. A cada casa deserta que passamos me bate um calafrio na espinha.

Hoje pela manha um sargento de outro agrupamento veio falar comigo, parece que alguém disse para ele que eu sabia ler e escrever. Ele me fez a proposta de ir para o pelotão dele, pelo o que eu entendi o pelotão dele arruma equipamentos quebrados, tomara que esse pelotão não entre em combate.

Fevereiro, 10

Chegamos a uma base militar, o clima aqui é de morte.

Todos andam calados e com os olhares baixos e cansados, todos os dias chegam caminhões abarrotados de corpos. Alguns inteiros, outros faltando braços, pernas e também partes de corpos avulsos, pernas, dedos, cabeças até mesmo uma mandíbula eu vi cair na vala para ser enterrada, dei uma breve olhada nos corpos ao redor, todos estavam com a mandíbula.

Eu estou em uma área da base que apelidei de “cemitério cinza”. Aqui estão tanques, aviões, carros, caminhões, motos, canhões, armas e vários equipamentos de comunicação, todos quebrados e aguardando conserto.

Quando chegou a noite perguntei onde iria dormir ao Sargento Tood, que rindo disse para eu escolher qualquer lugar dentro ou fora de algum carro ou avião, bem pelo menos não vou dormir com formigas me atacando e ele não falou gritando, isso foi um alívio para mim.

Escolhi um avião, o que estava em pior estado. Os outros mais habitáveis já estavam ocupados por grupos de soldados e cabos, como era novo no lugar achei melhor ficar sozinho. O avião, pelo que pude perceber, viu a ação do combate. O casco está repleto de furos de bala e um enorme buraco na lateral esquerda, o ferro está enferrujado. Pelo menos na cabine ainda existia uma poltrona que deveria ser do piloto, está com cheiro de mofo, mas dá para dormir sentado.

Fevereiro, 16

Os dias no cemitério cinza são sempre silenciosos, não vejo mais os caminhões trazendo os mortos e os gritos de treinamento para quem vai para o combate são sussurros que vem de longe, na maioria das vezes nem os escuto.

O Sargento Tood me designou para aprender e a ajudar o Cabo Collins com os rádios. No início foi confuso, mas com alguns dias fui aprendendo a diferenciar os modelos, peças e fios, concertei o meu primeiro rádio depois de dois dias, foi uma vitória para mim.

Fiquei sabendo que o William Sem Sobrenome e o White vão partir amanhã para a batalha, queria me despedir deles, mas o Sargento Tood disse que isso é a guerra, e que em breve nos veremos no céu de Deus, achei melhor ficar calado e voltar para o conserto dos rádios.

O avião que virou minha casa é um B-25, um bombardeiro muito usado e muito bom nas batalhas. A história desse eu achei interessante, o seu nome é “Donzela”. Um nome engraçado para avião, me falaram que o piloto dela era o melhor, bombardeava sempre com precisão e fazia manobras arriscadas para fugir quando era atacado, dizem que um dia simplesmente a Donzela pousou no campo sem usar os trens de pouso, dentro não existia mais nenhuma bomba, a tripulação estava baleada e desmaiada, a cabine do piloto estava vazia e ele sumiu. No dia que ouvi essa historia não quis dormir na poltrona.

Fevereiro, 22

Ontem tive um sonho estranho, sonhei que estava pilotando a Donzela, mesmo com o motor faltando, os buracos de bala e o casco aberto no lado, eu a estava pilotando e bombardeando campos e cidades, me sentia bem no sonho, o avião era como uma extensão do meu corpo. Acordei suado e olhei para poltrona assustado, ainda era madrugada e eu deitei no chão para voltar a dormir.

A tarde perguntei ao Cabo Collins sobre a história da Donzela para saber se era realmente verdade, ele confirmou e ainda completou dizendo que ninguém sobreviveu. Hoje vim dormir dentro de uma viatura, já me sinto desconfortável, a poltrona da cabine da Donzela é mais confortável.

Março, 03

Devo estar ficando louco, ontem fui dormir na viatura e acordei dentro da Donzela, não sei como fui parar lá, passei o dia observando os outros, mas ninguém ria ou falava nada, se foi alguma brincadeira estão fazendo muito bem, prefiro pensar que é uma pegadinha.

Hoje aconteceu algo de estranho comigo, o Cabo Collins teve uma disenteria intestinal e eu fiquei sozinho arrumando os rádios, quando foi quinze horas, todos começaram a fazer estática, chiavam alto, quase ensurdecedor e de repente um grito ecoou de todos os rádios ao mesmo tempo, corri de medo e chamei um soldado que é responsável pelos carros, quando entramos tudo estava no mais completo silencio.

O soldado riu de mim falando que estou ficando louco e foi embora, chequei rádio por rádio, a maioria estava com a fio que liga ao alto-falante desconectada, como seria possível que eles fizessem aquela estática toda?

Março, 19

Meus sonhos nos últimos dez dias estão sendo iguais estática e gritos, não sei mais o que fazer, o Cabo Collins diz que pode ser o stress por estarmos na guerra. Acho que não, podemos estar na guerra, mas a guerra não esta conosco.

Por incrível que pareça, quando durmo na Donzela a estática é menor, há uma semana que durmo no avião, durmo mal, mas durmo.

Março, 29

Os sonhos em que piloto estão mais frequentes e reais, posso jurar que ontem estava em combate, ainda mais que acordei com um roxo no braço no mesmo lugar que bati no meu sonho, descartei a ideia que possa ser uma pegadinha.

Eu vou arrumar um rádio e colocar no painel da Donzela, no ultimo sonho quase fui pego, lembro que tentei usar um rádio para pedir ajuda, mas como não tinha tive que me virar sozinho, foi eletrizante e assustador o sonho. Será que com um rádio no painel poderei me comunicar com alguém durante o sonho?

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