Passando um tempo no metrô

Olá, meu bom leitor.

Hoje eu estava vindo para o trabalho de metrô.

Era umas 6:20 da manhã mais ou menos, não existiam espaços dentro do vagão, todo o local estava desesperadamente cheio.

Depois de umas duas ou três estações me equilibrando para não cair nas paradas e arrancadas do trem e olhando fixamente para a parede me veio um pensamento: o que será que as pessoas a minha volta estão fazendo.

Primeiro olhei para a minha esquerda e vi que 90% das pessoas estavam igual como eu estava, parado olhando para um ponto fixo e se segurando para não cair e eram mais do mesmo na população, uniformizados e apenas seguindo a maré.

Quando me dei conta de que a poucos momentos antes eu fazia parte daquele enorme grupo sem expressão fiquei chateado comigo mesmo. Como eu pude me deixar levar assim.

Buscando um outro meio de viver fui primeiro olhar para os outros 10% que estavam dentro do meu campo de visão e naquele momento eram o meu mundo, a minha população mundial e a minha referencia de como é toda a sociedade.

No meio daquela multidão sem expressão havia um casal que no seu diminuto espaço de privacidade trocavam beijos e declarações, nem me importei muito, afinal de contas estavam com uniformes escolares e deveria ser uma paixão de ensino médio daquelas bem melosas e sem noção.

Depois disso tentei achar outra referência que quebrasse aquele tédio do vagão e achei dois amigos que conversavam ou brigavam, não sei ao certo, estavam muito longe e não dava para tentar fazer uma leitura labial, eu não sei tal técnica, mas criei uma tabela que segue assim:

Se a boca se abre e fecha em uma velocidade normal ou devagar, é uma conversa.

Se a boca está rápida e as mãos não param quietas, é uma descrição.

Se a boca está rápida e a mão parada, é falando mal de alguém.

Como havia muitas cabeças entre eu e os dois amigos eu não pude observar bem e como hoje é uma segunda-feira e não podemos esperar muitas coisas boas me conformei e criei uma conversa em que eles estavam falando mal do chefe.

Não havendo mais nada de interessante do lado esquerdo do vagão olhei para a direita, logo de cara vi a pessoa mais bizarra da minha vida, digo pessoa porque não soube distinguir se era um homem ou mulher.

O ser estava usando uma calça laranja apertada, uma blusa preta e uma touca, a criatura estava de costas para mim, então da touca saia um emaranhado de dreads que quase tocavam sua bunda. Deveria haver algum fone de ouvido ali escondido, pois a sua cabeça balançava para cima e para baixo e para os lados de tal forma que se ele entrasse em convulsão naquela hora as pessoas achariam que ele estava apenas inovando na sua dança.

Por mais que a figura fosse enigmática e eu não consegui descobrir o seu gênero eu a achei muito legal e desafiadora das normas normais que nos fazem viver nesta vida, depois de um tempo já cansado, na verdade estava já meio tonto, de ver o balançar incansável da cabeça voltei a olhar as pessoas.

Então vi que dos 10% que faziam algo na verdade seguiam um padrão, ou conversavam, ou ouviam música (tirando a criatura que conseguia fazer movimentos com a sua cabeça de uma maneira alucinante) ou então dormiam e me senti meio desolado, afinal de contas ali naquele mundo do terceiro vagão do trem das 6:20 não havia uma pessoa que realmente destoasse do resto.

Voltei a olhar para minha parede e mantendo o meu equilíbrio e tentando me conformar a cada balançado que eu deveria apenas seguir a massa e sobreviver da maneira que pudesse.

A uma estação da que eu deveria descer eu acabei sem querer baixando a minha visão e vi um senhor de idade sentado no chão com as costas apoiadas na parede, primeiramente senti pena dele os assentos preferencias estavam lotados e ele estava ali tendo que se sentar no chão.

Depois olhando com mais calma vi que ele estava com a cabeça baixa e que estava lendo um livro, bem grosso pelo que pude notar, mas não conseguia ver a capa e estava curioso para saber que livro era aquele.

Quando o metrô parou na central e pediu para que todos saíssem eu ajudei o senhor que me despertava a curiosidade a se levantar já que estava com um pouco de dificuldade, então tive minha primeira surpresa, ele estava vestido com um terno e estava todo alinhado, sentado com a mochila no colo eu não havia reparado já que a minha atenção estava no livro.

Muito educado me agradeceu pela mão amiga e eu aproveitei a oportunidade e perguntei que livro era aquele ele estava lendo com tanta atenção e ele me virou a capa, era um Vade Mecum e ele me disse que era um juiz da 3° Vara Cível do Fórum de Brasília. Fiquei chocado.

Perguntei por que ele estava sentado no chão e disse sem medo que fiquei surpreso e abismado com a postura dele, e ele me respondeu:

– Do que adianta eu me preocupar com o que a pessoa do meu lado está fazendo, eu tenho que me preocupar comigo, fazer tudo o que devo fazer de acordo com a minha logica. Se o certo para mim é sentar e aproveitar um tempo ocioso para estudar, é o que vou fazer. Não me preocupo se as pessoas estão desperdiçando o seu tempo, eu não quero desperdiçar o meu.

Me desejou um ótimo trabalho e disse que vai rezar para sempre me encontrar no metrô para que o possa sempre ajuda-lo a levantar.

Sinceramente, hoje aquele juiz me deu um dos tapas de luva no rosto mais esplendidos que eu já recebi na vida, ele não sabia o que se passava na minha mente e disse de uma maneira sobrenatural o que eu precisava escutar para crescer como pessoa.

E no final das contas ainda me rendeu um texto.

Tenha um ótimo ponto para ler!

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