Plano Piloto – Parte Quatro

Olá, meu bom leitor.

Acho que agora consegui entrar na sintonia da escrita para este conto, depois de tantas dicas e toques que recebi.

Espero que gostem do resultado e muito obrigado pelo apoio.

Só para constar, semana que vem é o final.

Para quem não leu as outras partes:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Tenha um ótimo ponto para ler!

Plano Piloto – Parte 4

Amélia estava sentada em um banco de concreto ao lado da Igrejinha.

A igrejinha foi o primeiro templo religioso construído em alvenaria em Brasília. Uma promessa da primeira dama Sarah caso a nova capital brasileira fosse construída. A arquitetura faz referência a um chapéu de freira e com as paredes externas cobertas por azulejos de Athos Bulcão.

“Quanto tempo será que ele ainda vai demorar?” pensava Amélia enquanto observava o templo. Ela gostava da particularidade daqueles azulejos. Todos tinham o fundo azul e intercalavam a imagem de uma pomba e a de uma estrela formando um belo mosaico que transmitia paz.

Enquanto Amélia estava sentada um grito de pavor cortou o ar. Um grito tão agoniante que fez Amélia se arrepiar e levantar pelo susto.

Todos que estavam próximos foram andando ou correndo, dependendo da curiosidade da pessoa, em direção à fonte do grito.

– Tem um morto aqui! – a voz estridente gritou agora mais alta. A voz vinha da parte de trás da igreja.

Amélia sentiu que deveria sair dali o mais rápido possível, mas a vontade de ver o corpo morto era maior, ela andou, sentindo arrepios por todo o corpo, para onde as pessoas começaram a se aglomerar.

Quando ela conseguiu ver quem era levou a mão à boca para segurar um grito. Ela conhecia aquele corpo, era ele que ela estava esperando. Seu nome era Joaquim Almeida e ele era o presidente do senado.

O corpo estava meio sentado na parede. Havia um buraco em sua testa, onde o tiro o acertou e um mosaico vermelho na parede,um mosaico vermelho vivo que contrastava com os azulejos azuis.

Amélia foi tomada por uma onda de pânico. O sangue ainda escorria pela parede, então ele foi morto há pouco tempo e se ela não escutou o tiro é porque foi feito por um silenciador. O pânico dentro dela cresceu ainda mais. “O matador ainda está aqui” e se ele matou o senador deveria saber o que ele iria fazer e também sabia que ela estava ali. “Tenho que sair daqui”.

Quando ela se virou para sair da maneira mais discreta possível se assustou, pois o número de pessoas havia crescido de maneira assustadora. Toda a praça que rodeia a igreja estava tomada de curiosos querendo ver o homem que acabara de morrer, mas para ela eram olhos que a perseguiam que podiam mata-la.

Ela foi se esgueirando pelas pessoas tentando sair daquele lugar quando ouviu dois homens conversando atrás dela:

– Eu tenho certeza, aquele cara é o presidente do senado. Ou era o presidente.

– Acho que não, o que ele iria fazer aqui?

– Eu que vou saber? Mas tenho certeza que é ele.

Amélia andou mais rápido. Se reconheceram Joaquim era muito provável que alguém a reconheceria também e se isso acontecesse seu nome seria vinculado a morte do senador e tudo estaria acabado para ela.

Ela conseguiu chegar ao carro. Antes de entrar no sedan de vidros fumes ela deu uma olhada em volta. Todos estavam com as atenções voltadas para a igreja. Ela deu um suspiro de alívio e entrou no carro.

Quando colocou a chave na ignição sentiu um cano morno encostando em seu pescoço.

– Não olhe para trás – disse a voz grave e abafada por causa da máscara preta de linho – ou então farei o mesmo que fiz com o senador.

Ela estava travada de medo. Ao longe já era possível ouvir as sirenes se aproximando.

– Você vai ligar o carro e dirigir – voltou a dizer o homem que mantinha a arma encostada no pescoço de Amélia – você vai sair e ir em direção à praça dos três poderes.

– Só não me mate – a voz dela saia trêmula – por favor.

– Isso vai depender de você – disse ele pressionando a arma contra o pescoço dela.

Quando saíram eles passaram pelas viaturas da polícia e dos bombeiros. Ela queria gritar por ajuda, mas agora estava sob a mira da morte.

O professor Carlos estava andando em uma via que mais parecia um túnel.

Após sua reunião com o General Albuquerque ele foi orientado sobre o que deveria fazer. Entregaram-lhe três livros: um demapas subterrâneos de Brasília, outro da planta das plataformas subterrâneas da esplanada dos ministérios e o terceiro continha toda a estrutura do Palácio do Planalto.

Sua missão era simples. Andar pelas vias subterrâneas abandonadas da cidade, abrir o acesso subterrâneo do Ministério da Defesa, entrar no Palácio do Planalto e chegar ao Gabinete Presidencial.

O professor pensava que em tese era fácil, mas ali ele viu o quão complicado seria, pois as vias subterrâneas foram abandonadas ainda na década de setenta e passaram todas essas décadas no mais puro abandono. A terra criava uma camada já espessa no chão e o ar era pesado, úmido e mofado o suficiente para causar uma tontura constante em Carlos.

A via que ele resolveu tomar era uma que passava exatamente seis metros abaixo do eixo monumental com um total de três vias de rolamento. Ele andou por aproximadamente uma hora até chegar embaixo da esplanada.

O que viu o fez ter raiva de si mesmo, pois não tinha um celular que batesse fotos. A parte subterrânea da esplanada era uma enorme galeria com centenas de colunas. Com a lanterna podia notar alguns carros abandonados e várias placas de orientação tomadas por poeira.

Seguindo a bússola, ele se orientou e foi em direção ao lugar onde estaria o acesso do Ministério da Defesa. Abriu o cadeado com a chave enferrujada que lhe foi entregue e continuou sua caminha nas trevas subterrâneas de Brasília.

Parou no meio do caminho e abriu a mochila que o general havia lhe dado. Bebeu um pouco de água, comeu algumas barras de cerais, pegou sua caneta e escreveu a seguinte frase na parte interna do papel:

“Estas vias obscuras de Brasília foram feitas por idealizadores e abandonadas por medíocres”.

Tinha que deixar um pedaço seu naquele mundo, mesmo que ninguém fosse ler, mesmo que ninguém mais passasse por lá, ele sabia que naquela escuridão haveria um pedaço dele.

Quando finalmente chegou ao acesso do palácio, parou e respirou fundo. Sabia que ali seria a parte mais difícil, pois teria que andar por dentro das paredes sem fazer barulho.

Abriu o acesso e entrou com uma coragem que não possuía, mas foi assim mesmo. Subiu uma série de escadas e esbarrou em uma porta trancada. Pegou a planta e a folheou apressadamente.

– Esta porta não deveria estar aqui – disse para si mesmo com receio.

Começou a pensar e a olhar as plantas novamente e todas as vezes que olhava não achava aquela porta. Então foi tomado por um desespero e depois a resposta.

O palácio havia sido reformado a pouco mais de cinco anos, é claro que não haveria aquela porta nas plantas que possuía.

– O que eu vou fazer agora? – ele dizia para si mesmo – como o general não pensou nisso.

Abriu a mochila e a vasculhou em busca de algo que não tinha visto antes, uma chave, um pé de cabra ou qualquer outra coisa que lhe ajudasse. Não achou nada.

Ficou de pé em frente a porta, deixou a lanterna no chão e foi quando colocou as mãos na cintura que sentiu o objeto que já nem lembrava que carregava, uma pistola.

Pegou a pistola, iluminou a porta com a outra mão e lembrou-se de uma coisa que o General lhe disse, mas antes havia deixado passar despercebido “Leve isto também, tanto para a sua segurança quanto para abrir portas”.

Ele sabia que o tiro iria fazer barulho, sabia que poderiam vir seguranças do palácio para ver o que acontecia, mas não tinha escolha. O General havia dito o motivo de ter sido intimado a essa missão e ele não poderia falhar. De qualquer forma, mesmo que morresse, havia deixado um pedaço seu ali dentro.

– Seja o que Deus quiser.

Mirou com a mão trêmula e atirou.

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