Plano Piloto – Parte Três

Olá, meu bom leitor.

Me desculpem. Não consegui postar a continuação nesta quinta-feira. Tive uns contratempos, a final de contas sou um simples mortal.

Espero que isso aconteça raramente, pois acredito muito que você espera pela postagem e por isso não pretendo deixá-lo na mão.

Sem muitas delongas segue a terceira parte do conto.

Para quem não leu segue as outras partes do texto.

Parte 1

Parte 2

Tenha um ótimo ponto para ler!

**

Assim que a porta se abriu e o professor pode ver a figura que ele conhecia apenas por revistas ou telejornais. Pessoalmente, o General era baixo e velho, na televisão ele falava com um tom tão poderoso que não passava a impressão de ser tão pequeno. A única coisa que chamava mais atenção no general era a platina que ele sustenta nos ombros, o símbolo que representa um General de Exército, o brasão do exército em cima de quatro estrelas. O Professor Carlos sempre via o simbolismo das patentes de Oficiais Generais como a mais expressiva declaração de patriotismo.

Como em todas as forças armadas, os Oficiais Generais carregam os brasões de suas respectivas forças e possuem de duas a cinco estrelas. As estrelas representam a constelação do Cruzeiro do Sul, a constelação que guarda o Brasil e está em posição de destaque no Brasão das Armas Nacionais. No caso do exército, os generais se dividem hierarquicamente, primeiramente tem-se os Generais de Brigada que possuem duas estrelas, ao ganhar a terceira estrela eles se tornam Generais de Divisão, os Generais de Exército têm quatro estrelas e os Marechais possuem as cinco estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul.

– Olá Professor Carlos – disse o general com o seu tom seco – o senhor pode entrar.

– Sim, claro – disse o professor um pouco receoso.

Assim que o professor entrou pode ver todo o esplendor do gabinete do general. Ele era realmente surpreendente. Uma sala enorme dividida em três ambientes distintos. O primeiro estava logo à frente da porta e era uma espécie de sala de estar com três sofás de dois lugares feitos com madeira de lei estofados com enormes almofadas de estampas de flores. Para fechar uma espécie de quadrado de sofás havia uma poltrona que possuía, na parte superior, uma espécie de coroa de madeira com a inscrição “Duque de Caxias, o Pacificador” talhada em forma de arco. Os desenhos e detalhes talhados nos pés e braços dos sofás indicam que eram da época do reinado.

No centro do quadrado tinha uma pequena mesa de centro no mesmo estilo dos sofás. Em cima da mesa havia um pequena estatueta de um índio em cima de um cavalo com um arco e flecha. Do lado oposto estava à mesa de trabalho do general, uma enorme mesa feita de aço escovado. Em cima da mesa tinha apenas a tela de LCD do computador, duas pilhas de papeis e uma agenda fechada na mesa. Atrás da mesa havia uma série de prateleiras com várias réplicas de blindados e diplomas emoldurados. Ao lado da mesa estava a bandeira nacional e a bandeira do Exército. No canto da sala havia uma enorme mesa de mogno com doze lugares e uma enorme televisão pendurada na parede com uma porta muito discreta ao seu lado. Havia ainda três quadros enormes representando diferentes batalhas consagradas do exército brasileiro e um belíssimo relógio de parede com pêndulo guardado por uma caixa de madeira de lei talhada com figuras de soldados e anjos.

– O senhor pode se sentar aqui – apontou o general para a cadeira em frente à mesa – temos muito o que conversar – disse o general sentando-se sem olhar para o professor.

– Sim, senhor – disse o professor mais cauteloso ainda.

Agora que os dois estavam sentados, o professor se sentiu como um estranho no ninho. Desde o momento em que ele entrou no gabinete, o general mal havia olhado para ele e foi logo indicando um lugar para ele se sentar. Ainda bem que vamos conversar aqui, pensou o professor, pelo menos tem essa mesa para nos separar.

– O senhor deve estar se perguntando o motivo que o trouxe aqui, professor – disse o general abrindo uma das gavetas e procurando algo.

– Sim, senhor – o que falar para um dos linhas dura do exército? – o senhor poderia me dizer o motivo, General? – será que fiz certo em perguntar assim de uma vez? Pensava o professor atordoado.

Assim que o professor terminou de perguntar o velho general parou de vasculhar a gaveta e lhe encarou.

– O senhor quer manter um nível educado ou quer que eu seja duro como qualquer outro subordinado meu? – disse com seu tom seco.

– Podemos manter um nível educado, senhor – disse o professor agora sentindo um frio no estômago. A resposta do general foi da mesma intensidade e estrago que um soco em seu rim, só que, nesse caso, o dano foi em seu ego.

– Então como um bom convidado Professor Carlos, espere o seu anfitrião dizer o motivo pelo qual está aqui – retrucou o general voltando a mexer em sua gaveta.

– Claro, General Albuquerque – disse o professor agora lembrando do que o Coronel Barroso havia dito antes de entrar no gabinete “não se ofenda com o que o General venha falar com você”.

Depois de alguns segundos remexendo a gaveta o General Albuquerque retirou uma pilha de umas duzentas folhas e as colocou em cima da mesa. Lançou um olhar vazio para o professor e resolveu começar a falar:

– Escute bem professor, eu mandei chamar o senhor para uma missão em nome do exército brasileiro, não me interessa se o senhor está a favor ou não de cumprir essa missão. Melhor dizendo, o senhor está sendo intimado a realizar essa missão, entendido?

– Claro, General – ainda bem que ele é direto, pensou o professor ao responder com a voz um pouco trêmula.

– Ótimo. O senhor está sendo convocado porque é o melhor no que faz e a situação é a seguinte – melhor começar devagar com esse civil, pensou o general – a segurança presidencial está em perigo e o exército necessita de uma pessoa capacitada para realizar uma missão bastante específica.

– Sim, claro – o professor fez uma pausa para pensar nas melhores palavras para não provocar muito o general – mas o senhor poderia me dizer mais especificamente o que tenho que fazer?

– Se o senhor me deixar terminar de falar, professor, ainda não terminei de lhe passar as instruções.

– Desculpe-me General – disse baixando a cabeça e pensando que não havia palavras certas para evitar o temperamento espinhoso do general.

O General Albuquerque pegou a pilha de papeis, se levantou e foi em direção a porta. Ao abri-la se virou para o professor:

– O senhor pode me seguir.

Com isso o Professor Carlos se levantou e foi em direção ao general, mas ainda não conseguia entender o motivo que o tornava tão importante para ser intimado a fazer parte de uma missão de segurança presidencial. E esse era o único pensamento que lhe vinha a cabeça.

O general atravessou a porta e foi seguido pelo professor, que ficou abismado ao ver o enorme corredor do outro lado da sala. Tinha cerca de  vinte metros, oito portas e no fim do corredor havia a porta de um elevador. Para a infelicidade do professor, todas as portas estavam fechadas e o general foi direto para a porta do elevador.

Assim que o general apertou o botão do elevador as portas se abriram automaticamente. Antes que os dois entrassem o general se virou para o professor e lhe advertiu:

– O local que o senhor está entrando é reservado apenas aos Comandantes do Exército, então não espalhe por aí as coisas que o senhor ver por aqui. Faz quarenta anos que nenhum civil entra nesse elevador. Posso confiar no senhor, Professor Carlos?

– O senhor pode confiar plenamente em mim, General Albuquerque – essas palavras do general fizeram um calafrio subir pela coluna do professor, o que ele veria seria, certamente, algo formidável.

Ao entrar no elevador o professor pode reparar no painel de botões para a escolha do andar. Além dos botões para os quatro andares, cobertura e subsolo o painel ainda continha mais três botões para andares abaixo do primeiro subsolo, que ele já havia conhecido. Impressionante, pensou o professor, aquele bloco continha o mesmo número de andares na superfície e no subsolo. Era basicamente um enorme prédio de oito andares, só que enterrado pela metade.

O general apertou o botão referente ao terceiro subsolo, pode-se ouvir o ranger das engrenagens do elevador começando a se mover e a sua descida foi lenta. Isso demonstrou que aquele elevador não era usado com frequência e bem provavelmente toda sua estrutura ainda era da época da construção do QG na década de setenta.

Assim que a porta se abriu no terceiro subsolo o professor sentiu um bafo de ar úmido e mofado penetrando no elevador como um soco. Tudo estava escuro, o pouco que a luz do elevador iluminava era suficiente para enxergar pouco mais de um metro e meio a frente. O General Albuquerque saiu como se não se importasse com o escuro e o professor ficou ali parado dentro do elevador sem reação e coragem de fazer alguma coisa.

Após alguns minutos o professor pode ouvir um pequeno som de batida e as luzes do recinto começaram a se acender uma a uma. A cada lâmpada que se acendia o enorme salão ia se revelando aos poucos, assim que tudo estava aceso o professor deu uns três passos para fora do elevador e não conseguiu acreditar no que via. Um salão era tão grande que não sabia nem com o que comparar. Tanto quando olhava a esquerda, a direita ou até mesmo a sua frente não conseguia enxergar as paredes laterais e todo o enorme salão era cheio de prateleiras com quase três metros de altura. As prateleiras que ele conseguia ver continham livros e caixas empoeirados, era simplesmente inacreditável. Inacreditável, a única palavra que vinha a mente do Professor Carlos.

– Professor Carlos, o senhor pode me seguir – disse o general já virando em um lance de prateleiras.

O professor quase não conseguiu ver onde o general entrou. Apressou um pouco o passo e conseguiu acompanhar o general. Eles andaram por uns vinte metros até que viraram a direita e o professor se viu em um enorme corredor com três metros de largura. As fileiras de prateleiras se mantinham organizadas ao decorrer do enorme corredor, ali o ar estava pesado com o cheiro do mofo.

– Professor, o senhor está em boa forma física? – perguntou o general com um tom pretensioso.

– Acredito que sim, General – respondeu o professor ainda pasmo com o que estava vendo.

– Ótimo vamos fazer uma pequena caminhada.

“Pequena Caminhada” o que será que ele quer dizer com isso? pensou o professor começando a se preocupar com o verdadeiro tamanho daquele salão.

Após quinze minutos caminhando o General Albuquerque cortou o silêncio fazendo um pequeno comentário:

– Acredito que o senhor deve estar se perguntando qual o tamanho deste galpão, professor?

– Sim, General Albuquerque, pelo tempo que estamos andando aqui dentro andando estimo que possua uns trezentos mil metros – disse o professor já jogando vinte por cento a mais do que havia calculado.

– Na verdade, são dois milhões e duzentos e cinquenta mil metros – disse o general corrigindo o professor.

Nesse momento o professor parou chocado com a informação que tinha escutado, ficou tão estupefato com aquele número que não conseguiu segurar as palavras na boca.

– Como assim? O senhor está me dizendo que estamos em um galpão subterrâneo com dois milhões e duzentos e cinquenta mil metros quadrados? Mas isso dá mais de dois quilômetros para cada lado, isso é inacreditável – o professor não conseguia conter o fascínio que lhe ardia por todo o corpo – o que mais eu posso saber desse lugar, General Albuquerque?

– Acredito que só – disse o general como se não se importasse com o entusiasmo dele – o que viemos fazer aqui é mais importante do que os dados da estrutura do Quartel-general.

– O senhor tem razão – disse o professor tentando se conter um pouco.

Após mais vinte minutos caminhando entre as prateleiras, o general parou em frente a uma e começou a passar a mão nos livros para retirar um pouco do pó e poder enxergar os títulos. À medida que o general retirava a poeira dos livros o professor ia, logo em seguida, lendo os títulos e se surpreendendo cada vez mais. Aquela prateleira certamente era a de projetos de vários prédios públicos. Os que o professor pode ler eram “Projeto Palácio Duque de Caxias – RJ”, “Projeto Central do Brasil – RJ”, “Projeto Porto de Santos – SP”, “Projeto Congresso Nacional – DF”, “Projeto Teatro de Manaus – AM”. E havia muitos outros livros que tinham os nomes dos mais importantes edifícios do Brasil, aquilo realmente era um tesouro enterrado para qualquer engenheiro ou arquiteto ter a disposição qualquer projeto dos prédios mais consagrados do Brasil. Era um luxo que o Professor Carlos certamente queria ter.

– Professor, o senhor pode vir ate aqui. Achei os livros que estava procurando.

O Professor olhou em direção ao general e pode ver que o mesmo carregava três livros. Agora, o entusiasmo do professor era outro. Pouco lhe importava a missão que o general poderia lhe dar, ali ele estava cercado por uma riqueza de conhecimento sem valor. Qualquer missão que ele precisasse cumprir já valia a pena só por estar naquele lugar.

– Pegue esses livros. Eles serão o seu material de trabalho, professor – disse o general entregando os exemplares ao professor e voltando a andar – vamos voltar ao gabinete que lá poderei lhe informar adequadamente sua missão.

Na caminhada de volta o Professor não conseguiu conter a sua curiosidade e passou à mão na capa dos livros. Agora sua curiosidade se transformou em ânimo.

Naquele mesmo momento a Ministra Amélia acabara de se retirar do gabinete presidencial situado no terceiro pavimento do Palácio do Planalto.

Ótimo. Agora tudo esta ocorrendo da maneira planejada – pensava a ministra enquanto caminhava pelo corredor – tenho que tomar muito cuidado agora. Qualquer passo em falso e o Brasil será entregue aos criminosos – ela parou no meio da rampa que desce do mezanino para o salão de comitivas, a curva que a rampa faz até o chão se acentua em um ponto que fica bem de frente para o vidro do palácio dando total visão da Praça dos Três Poderes, uma visão que a ministra particularmente adorava – Não posso deixar que o Brasil vire um país mais corrupto do que já é. É o meu dever que isso não aconteça, espero que os comandantes cumpram a sua parte.

Quando desceu a rampa a ministra foi em direção ao elevador para chegar ao térreo. Ao sair do Palácio um carro já a esperava e assim que entrou no carro ela pegou o celular e fez uma ligação.

– Alô, aqui é a Amélia, gostaria de saber que horas poderemos nos encontrar?

– Acredito que poderemos nos encontrar só amanhã, tem algum problema para você? – perguntou  a voz do outro lado da linha

– Não, nenhum problema. Pode ser às quinze horas em frente à igrejinha?

– O horário está bom, mas porque em frente à igrejinha?

– Lá tem pouco movimento nesse horário e como é um local público não correrei riscos.

– Tudo bem, amanhã às quinze horas em frente à igrejinha.

Após a resposta, a ministra encerrou a ligação.

Muito bem, pensou a ministra, agora é apenas uma questão de tempo. Em breve todos que estão derrubando esse país estarão presos ou mortos.

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