Plano Piloto – Parte Um

Olá, meu bom leitor.

Primeira semana do ano, e chegamos a mais uma quinta feira, dia de postagem.

Ano novo e desafios novos, hoje vou postar o inicio de um conto de suspense policial, uma modalidade totalmente nova para mim, então muita calma na leitura e tentem ler com mais calma.

Espero que consiga transmitir a sensação de uma leitura intrigante e envolvente, como um bom suspense deve ser.

Tenha um ótimo ponto para ler!

Plano Piloto – Parte 1

São exatamente onze horas e trinta minutos de uma segunda-feira que com certeza ficará para a história. O clima estava normal, seco, frio e com um vento de força moderada que fazia a sensação térmica acentuar um pouco mais o frio daquela noite, típica do outono no cerrado.

Aquela hora não havia muitos carros andando pelas largas pistas que cortavam a Esplanada dos Ministérios. A esplanada era de uma simplicidade e genialismo surpreendentes. Lúcio Costa, quando propôs o projeto urbanístico da nova capital brasileira, surpreendeu até os mais experientes urbanistas. O projeto se fixava principalmente em dois eixos cruzados em forma de cruz, a partir do centro da cruz se dividiam em asas sul e norte, bairros residenciais com pequenas áreas de comércio e o eixo monumental. Na esplanada dos ministérios, o lado oeste era destinado às repartições públicas federais e no leste se encontrava toda a cúpula do centro de decisões do governo. Ao lado das duas pistas situavam-se os ministérios e ao final a praça dos três poderes, o poder legislativo representado pelo Congresso Nacional, o executivo pelo Palácio do Planalto e o judiciário pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas a calma que pairava na esplanada não se refletia no Ministério da Defesa. Em frente à janela do décimo andar, observando o mundo calmo, estava o senhor Davi Santos de Paula Albuquerque ou, como é mais conhecido, o General de Exército Albuquerque, Comandante do Exército Brasileiro. Era um homem de 75 anos com cerca de 1,60 m de altura. Tinha um corpo bem forte e rígido para um homem daquela idade, era um tanto quanto ríspido e rude. Alguns até o apelidaram de “toco do inferno” em referência ao seu tamanho e temperamento, mas todo esse jeito bruto foi adquirido com os seus recém completados cinquenta anos de serviços prestados a força terrestre. Por ocasião de seu tempo de serviço recebeu a medalha de cinco estrelas com passador de platina, a única medalha que resolveu por em sua farda com orgulho para aquela noite.

Apenas ele estava na sala de espera aguardando para se reunir com o Ministro da Defesa. A sala era ampla com um sofá de canto, uma mesa de centro em madeira de lei da época do reinado, cada pé da mesa tinha um anjo talhado com as mãos erguidas segurando o espesso e pesado vidro. E, na parede oposta à janela, havia um enorme quadro pendurado representando uma cena de guerra onde todos estavam caídos no chão menos um imponente cavaleiro e seu cavalo segurando uma lança em cuja ponta estava à bandeira do Brasil a época da proclamação. Era muito parecida com a atual, a única diferença é que onde hoje fica o círculo azul antes havia o brasão da Família Real.

O General Albuquerque retornou de seu devaneio olhando pela janela quando a porta se abriu dando passagem ao Tenente-Brigadeiro-do-Ar Júlio Cavalcante de Moura ou, como gostava de ser chamado, Brigadeiro Moura, o Comandante da Força Aérea Brasileira. Entre os três comandantes era o mais jovem, com 62 anos e poucos mais de quarenta anos de serviços, mas era também o mais inteligente. Muitos diziam que se não tivesse entrado para a Aeronáutica seria com certeza um dos maiores estudiosos do século XXI. Tinha fama de intelectual e incríveis 1,89 m distribuídos em um corpo escultural. Seus cabelos eram grisalhos e seu olhar capturava a atenção de quem os via. Era simpático e bastante educado, mas, para a infelicidade dos menos afortunados, sabia tirar proveito disso com uma habilidade invejável.

– Vejo que o ilustríssimo General Albuquerque continua a cuidar de sua fama de pontual – o Brigadeiro Moura foi caminhando e falando com um tom desafiador e estendendo a mão ao General Albuquerque.

            – Eu já nasci militar e militar é pontual – e antes de continuar a falar o general ficou olhando a mão do brigadeiro estendida – e como um bom militar, o senhor deveria saber que antes de estender a mão ao mais antigo, o moderno tem que prestar continência em sinal de respeito – seu olhar era frio como a noite lá fora.

Como sempre os dois comandantes não se davam muito bem, cada um com seus motivos. O General Albuquerque, por não aceitar a promoção do Brigadeiro Moura pelo seu pouco tempo de serviço e pouca postura de militar. E o Brigadeiro Moura por não gostar do temperamento grosso e hostil do General Albuquerque.

– Me desculpe, erro meu – e assim levou sua mão para perto do rosto prestando a continência.

O General contribuiu e completou com o seu tom sempre grosso e de poucos amigos – Uma continência se faz com a mão espalmada e dedos unidos, Ilustríssimo Tenente-Brigadeiro-do-Ar Moura. O senhor sabe o que o Ministro quer conosco?

– Pelo que eu sei, General, é uma reunião de emergência pela segurança nacional. O ministro me contatou a menos de uma hora – resolveu responder e fingir não ouvir a bronca dada pelo General – mas pelo que sei, uma reunião desse caráter é feita com os três Comandantes, o Ministro da Defesa e o Presidente da Republica ou um representante.

– O Almirante-de-Esquadra Ribeiro já se encontra com o Ministro no seu escritório no andar abaixo e quem veio representar o Presidente foi a Ministra Chefe da Casa Civil a senhora Amélia – falou voltando o olhar para a janela e a rua, tratando o Brigadeiro como um subordinado seu – que também se encontra no escritório.

– Então eu vou descer, eles já podem estar discutindo o assunto da reunião lá em baixo. As vezes podem até estar nos esperando.

– Meu caro Brigadeiro, eu fui chamado para uma reunião na sala depois daquela porta. Qualquer assunto que os três estão tratando lá em baixo não me diz respeito – agora deixando de olhar a janela e fixando um olhar frio no brigadeiro – um bom militar sabe cumprir as ordens que lhe foram dadas, a reunião começará as 0h e agora são 23h46.

Agora sei por que seus próprios companheiros de força o apelidaram de toco do inferno, pensou o brigadeiro e disse após um breve respirar – Pois bem, meu ilustre General, descerei ao escritório do Ministro e direi que o senhor já está aqui e aguarda a todos – virou as costas e foi até a porta sem dar nenhuma chance de resposta rude vinda do General.

O General Albuquerque voltou a olhar para a janela e voltou a se perder em seus pensamentos, ou melhor dizendo, um único pensamento que lhe vinha a cabeça naquela noite – estão todos envolvidos, tenho provas disso, mas antes tenho que dançar conforme a música.

Exatamente às 23h55 entraram na sala de espera o Brigadeiro Moura, o Almirante-de-Esquadra Ribeiro, a Senhora Ministra Amélia e o senhor Ministro da Defesa Pedro. O general virou-se para poder cumprimentar todos e não pode deixar de reparar na figura que é o Almirante-de-Esquadra Ribeiro. Um homem relativamente fora de forma para um militar, mesmo que oficiais generais fossem de idade avançada e não tivessem a obrigação de fazer a série de exercícios diários, o almirante se descuidou completamente da forma física que já tivera e hoje apresentava uma barriga de chopp bem protuberante. Para completar a visão ele tinha um bigode bem volumoso o que fez com que o General pensasse na semelhança do comandante da Marinha Brasileira com um Leão Marinho. Só lhe faltava as presas, mas, apesar das aparências, era um homem amável e nunca em sua carreira militar de 48 anos usou um tom de voz alto com seus subordinados. Na marinha é conhecido como Santo Almirante Agostinho, por causa de seu nome Augusto dos Santos Lima Ribeiro.

– Olá, General Albuquerque. Quando soube que o senhor já estava aqui pedi a todos para subirmos logo – disse a senhora Amélia com seu tom de voz suave e melodioso. A senhora Amélia Souza da Cruz estava no auge de seus 53 anos com o corpo de uma mulher de 35 que fazia suspirar qualquer um que a visse andando. Nascida e criada em uma tribo dos Tupi-Guarani tinha a pele morena e os cabelos longos, pretos e lisos. Desde cedo sabia que a vida na tribo não era para ela e decidiu estudar e acabou se formando em engenharia florestal pela Universidade Federal de Manaus. Mais tarde entrou na luta pela Amazônia, posteriormente foi Ministra do Meio Ambiente e depois foi convidada pelo presidente para ser a Ministra Chefe da Casa Civil, o segundo cargo mais importante do poder executivo depois do presidente. Fato que a firmou como uma das maiores mulheres da política brasileira.

– A senhora não precisava se preocupar comigo. Acredito que todos aqui presentes sabiam o horário certo da reunião – respondeu o general com o mesmo tom seco na voz.

– Não seja rude com a senhorita Amélia, General – retrucou o Almirante Ribeiro com um tom que sempre puxava para a brincadeira.

– Acredito que nossa reunião seja mais importante para a nação do que a maneira que eu trato a ministra, que não foi de modo algum desrespeitadora – respondeu ainda mais seco e apontando para a porta da sala de reuniões.

– Acredito que o General Albuquerque tenha razão. Vamos entrar e começar logo – disse o Ministro Pedro gesticulando para que a Ministra Amélia entrasse primeiro – hoje temos aqui em nossas mãos um assunto um tanto danoso para o bem estar da população brasileira – disse com um tom preocupado o ministro Pedro Flavio Viana Flores, o primeiro ministro da defesa que não era militar. Tinha 58 anos e 118 kg distribuídos em 1,68m que faziam dele um homem bastante obeso. Um homem de caráter, formado em Ciências Políticas e especialização em diplomacia internacional, motivo que fez com que fosse convidado para o cargo, desagradando os militares. Muitos diziam que a escolha dele para o ministério rebaixava a importância da segurança nacional e da formação militar.

A sala de reuniões do Ministério da Defesa era a menor entre todos os outros ministérios. Era uma sala quadrada sem janelas com um carpete azul claro que ia do chão até a base do teto. No centro havia uma mesa em forma de pentágono vazada no meio. Na parte de dentro, a madeira da mesa descia em uma única peça até o chão, podia-se ver os brasões das três forças indicando os lugares dos comandantes, o símbolo do Ministério da Defesa indicando o lugar do próprio Ministro e o último lado do pentágono, com o Brasão da República, indicava o local do Presidente da República, que naquela noite seria ocupado pela senhora Amélia. Atrás da cadeira onde a ministra se sentaria havia ao centro a bandeira do Brasil e ao seu lado as bandeiras das três forças armadas e a do ministério da defesa.

Após todos se acomodarem em seus respectivos assentos o Ministro da Defesa pegou uns papeis e pediu para seu assistente repassar as cópias para cada um. Após todos terem recebido a cópia, o ministro fez uma pausa de cinco minutos e depois de um longo suspiro começou a falar.

– Gustavo, obrigado por ter entregado as cópias, mas agora é necessário que você se retire da sala. O assunto é sigiloso e você não pode tomar conhecimento do que será tratado aqui – Gustavo era o assistente pessoal do ministro, com 34 anos, discreto e muito habilidoso na arte de ser comandado.

Gustavo assentiu com a cabeça e saiu fechando a porta ao sair. Depois o silêncio voltou a tomar conta do recinto com todos os quatro vendo o conteúdo do bolo de cinquenta páginas. O ministro estava observando as reações de todos menos a do General Albuquerque que permanecia com a mesma feição a cada página percorrida.

– Bem, então vamos começar – resolveu dizer o ministro meio sem jeito – acabei de entregar a cada um de vocês uma cópia de um dossiê que o ministério está trabalhando a mais ou menos três meses…

– Como assim o ministério está trabalhando em um dossiê secreto sem o meu consentimento? – cortou o General sem tirar os olhos dos papeis – e acredito que os meus companheiros comandantes também não sabiam dessa atividade.

– Bem, General Albuquerque, eu posso explicar – retrucou à senhora Amélia com a voz bastante calma – o Ministro Pedro há uns quatro meses procurou o Presidente e pediu autorização para criar uma equipe e fazer essas pesquisas cujos resultados o senhor pode ver nesse dossiê.

– Senhora Amélia, poderia me dizer a função desse ministério? Acredito que me esqueci – disse o general agora voltando os olhos negros e sem vida em direção a Ministra.

– Ora General, – essa foi uma das raras vezes em que a senhora Amélia ficou sem palavras para uma pergunta. Logo ela que já estava acostumada a ser bombardeada com todo tipo de pergunta em coletivas de imprensa, mas certamente o General Albuquerque desconcertava qualquer um com seu jeito frio e seco – o Ministério da Defesa foi criado para englobar as três Forças Armadas brasileiras e facilitar o relacionamento entre os militares e o Presidente da República. Cada força é representada por um Comandante e todos tem o mesmo poder dentro das esferas de suas atribuições. Já o Ministro da Defesa é a peça que liga as forças armadas ao Presidente, acredito que respondi corretamente sua pergunta, General?

– Sim, apenas esqueceu-se de um detalhe, Ilustríssima Ministra – agora seu tom de voz estava pesado e irritado – o ministro da defesa é apenas uma peça de ligação, as decisões que vierem a ser tomadas por esta casa devem passar antes pelo conselho de defesa que, por acaso, somos nós. E, ao que me consta, este cargo de ministro seria rotatório entre os oficiais generais das três forças. Cada ano um militar de cada força assumiria o cargo para que se mantivesse a igualdade de autoridade e o respeito entre as forças – a cada palavra sua voz preenchia mais a pequena sala, a sensação que tinham era de que o General Albuquerque iria engolir todos ali de uma só vez – mas o Presidente resolveu colocar um civil neste cargo. E, como posso ver, não está tendo o devido respeito com a autoridade e a hierarquia aqui, mas como posso exigir isso de um civil, não é mesmo senhor Ministro?

– General Albuquerque, pelo que eu vi aqui o Ministro Pedro deve ter uma boa razão para ter feito isso – disse o Brigadeiro Moura esperando acalmar um pouco os ânimos do general.

– Muito obrigado, Brigadeiro – resolveu dizer logo o Ministro que já estava suando litros – mas não tiro a razão do General. Ele está certo, mas os senhores tem que entender que se eu não tivesse feito dessa forma, o dossiê não seria aceito pelo conselho, por conta da redução das verbas para esse trimestre – passando um pequeno pano na testa para secar um pouco o suor – e o motivo para essa pesquisa foi o grau de segurança que, como os senhores podem ver, é “SP”.

– Nunca vi esse grau de segurança, senhor Ministro – disse o Almirante Ribeiro coçando o enorme bigode.

– Bem colocado Almirante – e voltou a passar o pequeno lenço na testa para enxugar mais o suor – os senhores devem saber dos graus “D”, “N”, “S” e “C” – os níveis de segurança em que um documento era colocado, o nível “D” é o “Diário”, que são aqueles documentos que qualquer um pode ler e devem ser guardados por até cinco anos, o nível “N” é o “Normal”, que apenas os chefes de seções, demais autoridades do quartel e do governo tem o direito de ler e devem ser guardados por até sete anos, o nível “S” é o “Secreto”, que apenas os comandantes de quartéis, Oficiais Generais e autoridades do governo tem o direito de ler e devem ser guardados por até dez anos, o nível “C” é o “Confidencial”, que apenas Oficiais Generais pertencentes do alto comando de cada força, ministros, presidentes do senado e da câmara dos deputados, presidente do STF e o presidente da república podem ler e sua guarda é permanente – mas o nível “SP” é o de “Segurança Presidenciável” onde apenas o presidente da republica e as pessoas que ele indicar podem tomar conhecimento de seu conteúdo e sua guarda está a critério do Presidente.

– Então o senhor quer dizer que a queda da verba deste trimestre para as Forças Armadas foi devido a essa pesquisa que o senhor achou que devia fazer sem consultar o conselho? – dessa vez quem falou com tom de irritação foi o Brigadeiro Moura.

– Eu sei que foi uma decisão errada, mas como os senhores podem ver eu tive bons motivos para ter feito isso – agora o pano já estava encharcado o suficiente para não secar mais sua testa que neste ponto já criavam gotas de suor – basta os senhores olharem a partir da página quarenta e sete e ver as conclusões.

– Já olhei e não acredito no que está escrito, e nem nas decisões que devem ser tomadas – disse o Almirante Ribeiro coçando o seu volumoso bigode.

– Pelo que eu posso ver, essa sua equipe – disse o General Albuquerque com um tom meio desacreditado – deve estar meio enganada – fez-se uma longa pausa – pois aqui eles dizem para entrarmos em estado de sítio e caçar uma lista com mais de dois mil nomes e alguns são nomes da alta cúpula de comando dentro do Congresso Nacional, do STF e de várias embaixadas – fez-se outra pausa, só que agora ele estava olhando diretamente para o ministro – quero falar com essa equipe e ver todos os dados.

– Me desculpe, senhor General, mas não poderá ver ninguém da equipe – disse a Ministra Amélia com um tom decisivo.

– Por que não, Ministra? – perguntou o Brigadeiro Moura com um tom preocupado.

– Porque estão todos mortos – desabafou o Ministro Pedro, agora passando a mão na testa para retirar um pouco do suor.

– Como assim mortos? – perguntou o Almirante Ribeiro batendo com a mão na mesa.

O Ministro Pedro já não sabia mais como responder aquelas perguntas. O suor que escorria de sua testa o estava atrapalhando e ele não suportava mais aquela situação. Tentou falar, mas não saia voz de sua boca, o suor escorria cada vez mais, e ele só conseguia pensar em como responder aquela pergunta. Falaria a verdade ou apenas inventaria algo como o Presidente o aconselhara mais cedo? Mas antes que pudesse raciocinar sobre o que fazer e dizer foi trazido de volta pelas palavras do General Albuquerque.

– Bem – disse o general com um tom seco nunca antes ouvido por ninguém presente naquela sala – acredito que o papel do Ministro nesta sala não servirá para nada. A senhora gostaria de nos explicar o que está acontecendo aqui, senhora Ministra? – disse com um tom seco, irritado e desafiador olhando para a Ministra.

– Estou vendo que terei de fazer a função do Ministro essa noite – disse a Ministra balançando negativamente a cabeça para Pedro – esse dossiê diz o nome de todos aqueles que podem trazer perigo a segurança nacional. O próprio presidente autorizou a entrada do estado de sítio para que possam ser cassados e presos cada um desses nomes e quem realizará ação, adivinhem, serão as tropas comandadas pelos senhores.

– Isso eu já pude ler aqui Ministra – retrucou o general sem deixar o tom seco e irritado diminuir – o que eu e meus companheiros queremos saber, é o motivo de todos da equipe que fez o dossiê estarem mortos.

– Olhe bem, meu caro General, os integrantes da equipe realizadora estão mortos porque o presidente os viu como uma ameaça à segurança nacional – fixando os olhos no General – eles sabiam de todo o conteúdo dessa lista, o que os tornou inimigos do Estado – fez-se uma pequena pausa para observar a expressão do velho General, mas, no entanto ele continuava com o mesmo olhar frio – ninguém sabe o preço que essa lista pode alcançar e agora acredito que o senhor entende o motivo de a equipe estar morta.

Tanto o Almirante Ribeiro como o Brigadeiro Moura ficaram pálidos e não sabiam o que dizer, tudo aquilo que a Ministra disse era repulsivo. Como o presidente pode mandar assassinar uma equipe de quinze pessoas da mais alta confiança do Ministro Pedro? Era uma pergunta que os três não paravam de se fazer.

– Então me diga, ilustre Ministra – começou o velho General a dizer sem mudar sua feição seca – mesmo a equipe estando morta, e por ordens do presidente, ainda não consigo ver a importância de entrar em um estado de sitio. Mobilizar todo o exército, sem dizer a força aérea e a marinha, para caçar uma série de pessoas e as prender, isso se o presidente deseja que elas sejam apenas presas, para depois ele mandar matar todos que tiveram contato com esse documento que é um “SP”? – apontando para os documentos pousados na mesa – e o que dirão a nossos familiares? Que morremos por causas naturais? – seu tom é sarcástico – Quero garantias da senhora e do presidente que tanto eu como os meus companheiros comandantes aqui não sofreremos nenhum risco, estamos entendidos, ilustríssima Ministra?

Certamente aquelas palavras ficaram flutuando por alguns segundos na pequena sala de reuniões. Como podia o General Albuquerque ser tão frio e calculista daquele jeito? pensava o Brigadeiro Moura, o pensamento do Almirante Ribeiro não ia muito longe disso também. Apenas uma coisa era certa em meio a tudo que estava acontecendo, e os dois comandantes sabiam ver claramente, o Ministro da Defesa Pedro era apenas um peão e todo o tabuleiro que já estava montado. Um peão bastante assustado e suado diga-se de passagem, os três comandantes foram transformados em bispos e limitados a andar somente onde o presidente ordenava e a sua maior protetora, a rainha ou, melhor dizendo, a ministra podia se locomover a vontade destinada a proteger o presidente e atacar quem ela visse como ameaça.

Durante toda a reunião os três comandantes trocaram informações por um velho código conhecido dos militares, o Código Morse Mudo, o mesmo padrão do Código Morse convencional que é executado com as varias sequências de “bips”. A diferença é que o mudo é feito apenas com o movimento da ponta do dedo indicador direito de maneira bastante discreta, praticamente imperceptível a olhos não treinados. Dessa maneira os três comandantes se comunicaram durante toda a reunião trocando informações e averiguando o nível de segurança para dar continuidade a busca de dados. Eles chegaram ao consenso de que tanto o Brigadeiro Moura como o Almirante Ribeiro ficariam mais calados e aceitariam sem muitas perguntas as ordens para conseguir a confiança da Ministra enquanto o General Albuquerque faria o papel de chato fazendo as perguntas pertinentes, coisa que não seria muito difícil para ele.

– Sim General – disse a Ministra voltando ao tom aveludado – eu e o presidente garantimos que os senhores não sofrerão nada e posso ainda assegurar isso aos seus familiares.

– Muito bem – retrucou o General com o tom seco – quando o presidente quer que entremos em estado de sítio? A senhora sabe que preciso entrar em contato com todos os comandantes militares de área, para que esse estado de sitio comece estável.

– Também preciso – emendou o Almirante Ribeiro – marcar uma convocação com todas as grandes capitanias de portos. Em um estado de sítio, a senhora sabe, temos que fechar nossos portos e restringir as permissões de uso do litoral brasileiro.

– E o senhor, Brigadeiro Moura? – perguntou a Ministra, com a feição mais amável por estar gostando das respostas que estava ouvindo.

– Também precisarei de tempo pelos mesmos motivos, tenho que limitar os voos no espaço aéreo brasileiro e fechar a fronteira aérea.

– Pois bem, gosto da postura dos senhores, sabem realmente o que é melhor para o Brasil – disse percorrendo o olhar por todos os três comandantes sem deixar de escapar o pequeno sorriso de canto de boca – acredito que sete dias é o suficiente para os senhores autorizarem o início do estado de sitio.

Todos os três comandantes assentiram positivamente com a cabeça e o Ministro Pedro apenas passou a mão mais uma vez na testa para tentar secar o suor.

– Muito bem acredito que não temos mais nada a tratar aqui, o senhor pode encerrar Ministro Pedro – disse a Ministra Amélia com o tom de voz aveludado como se a reunião tivesse ocorrido como de costume.

– Cla-claro Ministra – disse o Ministro nervoso e passando mais uma vez a mão a testa – como Ministro da Defesa declaro encerrada a Reunião do Conselho de Defesa Brasileiro, ressaltando que na próxima segunda-feira voltaremos a nos reunir para ouvir as deliberações das três forças e implantação do estado de sitio.

Após o Ministro ter terminado a reunião, a Ministra Amélia foi a primeira a sair dizendo um “até logo senhores” tão rápido que os presentes mal conseguiram retribuir antes de vê-la desaparecer ao atravessar a porta. Depois disso o General Albuquerque se levantou prestou uma continência e se retirou da pequena sala de reuniões, o Ministro Pedro cumprimentou o Brigadeiro Moura e depois o Almirante Ribeiro e os três se retiraram da sala de reuniões exatamente às duas e quinze da madrugada de terça-feira.

Ao sair do estacionamento privativo de autoridades do Ministério da Defesa, o General se deparou com a Esplanada dos Ministérios. Pode ver uma cena que o fazia ter mais vontade de lutar em prol do certo, ele pode ver a Esplanada vazia sem nenhum movimento, nada de carros e nada de pessoas andando por suas largas calçadas. Após o Estado de Sítio essa avenida ficará vazia a qualquer hora do dia, pensou o velho General.

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