Um conto sobre amor e guerra – Parte Dois

Olá, meu bom leitor.

Segue a segunda parte do conto que iniciei semana passada.

Espero que vocês gostem da continuidade e do desfecho da parte.

Para quem não leu a primeira parte segue o link:

Parte 1

Tenha um ótimo ponto para ler!

Um conto sobre amor e guerra – Parte Dois

A rua larga que cortava a vila em direção ao castelo no alto da colina encontrava-se totalmente esburacada e lamacenta, Altenor teve que diminuir o passo do seu cavalo até andar vagarosa e lamentosamente.

Um dos olhos que o observava resolveu se aproximar e acompanha-lo de longe. Ao observar que estava sendo seguido Altenor parou e virou-se para enfrentar o homem que vinha logo atrás o seguindo.

– Você não é um soldado do rei, sua armadura é diferente – disse o homem e Altenor percebeu que na verdade ele era um garoto que deveria ter pouco mais de dezesseis anos, tinha acabado de se tornar um adulto, suas roupas eram gastas e rasgadas, os pés nus pisavam na lama e era possível ver uma crosta de lama seca que chegava próximo ao seu joelho.

– Não, não sou um soldado desse rei que destrói a vida e o que é belo, mas sou outro rei. O rei de outrora que governava essas terras, sou Altenor – sua postura enquanto falava demonstrava nobreza e imponência, o garoto olhava-o admirado.

– Você quer ser morto?

– Eu já vi a dama morte e acredito que por um momento estive realmente morto, mas fui salvo pelo bom Sanvor e sua filha Liluani, voltei do mundo dos mortos, vi os imortais e a beleza encarnada em forma viva. Não, eu não tenho medo de morrer, pois agora ela é uma velha amiga minha. Por que deveria ter medo de morrer?

– Você fala engraçado, um engraçado bonito, mas é burro – o rapaz o olhava com curiosidade e diversão – se for mesmo que diz quem é então eu acredito que realmente tenha estado morto, pois pelo que sei Altenor foi morto em combate e o seu corpo nunca foi encontrado. Mas se continuar a andar em direção ao castelo, terá uma flecha cravada em seu pescoço na metade do caminho.

– Venha comigo – o garoto andou em direção as casas – não acredito muito que você seja Altenor, deve ser mais um louco qualquer que pegou a doença da loucura da fome, mas gostei de você. Se quiser viver por pelo menos mais um dia e comer algo, me siga.

– Se você não acredita em quem eu sou, por que deveria segui-lo? – Altenor disse desafiando o rapaz.

– Eu não estou lhe obrigando a nada, apenas fiz um convite. E você pode ser quem quiser, quem sou eu para duvidar? Apenas mais um morto de fome com uma loucura menor do que a sua – e o rapaz continuou andando.

Altenor voltou os olhos para o grande castelo que crescia no alto do morro. Ao fita-lo pode ver, ou teve a impressão de ver homens andando por cima do muro, deveriam ser arqueiros. Voltou o olhar para o rapaz que andava entrando em uma ruela entre as casas. Ele pensou por um momento e viu que realmente estava tomado por uma loucura. Não a da fome, mas sim a da vingança, mesmo que batesse na porta da frente seria morto rapidamente, como iria retomar o seu reino sem um exército para ir à guerra?

Esporou sua montaria e seguiu o rapaz por entre as casas, ou o que restavam delas. Mesmo há dois anos, quando era o rei, pouco descia para a cidade que ficava aos pés do morro, mas pela janela ele lembrava que mesmo de longe ela era repleta de vida. Camponeses preocupados com o trabalho, família e amigos, todos viviam em paz tocando as suas próprias vidas sabendo que o rei os protegia, essas lembranças fizeram com que uma sombra de tristeza o abatesse.

Os dois andaram cortando por uma rua à esquerda e depois seguindo para o leste em direção ao que antes era uma plantação de alfaces, cenouras, batatas e beterrabas. Agora estava tomada por mato e gatos do mato. Os dois andaram e foram em direção a Mata do Rei.

– Garoto eu me lembro desse lugar – Altenor disse quebrando o silêncio – corrija-me se estiver errado, mas essa é a Mata do Rei, um bosque que segue do muro leste do castelo e passa por de trás da vila e avançando por milhas pelas planícies.

– Se essa mata seguia desde o muro do castelo eu não sei dizer, o rei mandou queimar tudo em volta do castelo, o castelo agora é uma ilha rodeada por uma desolação.

Altenor ficou mais triste, como alguém poderia ser tão cruel, tanto com o que fez com a população como com a mata – Um rei deve se preocupar tanto com os seres vivos como com as plantas que crescem sob a sua proteção – disse ele para si mesmo, o rapaz não o escutou.

A Mata do Rei estava mais melancólica do que ele lembrava, as árvores parecia estar podres e, no entanto vivas, o ar estava carregado e o vento uivava como uma lamentação continua e chorosa.

– Me bate uma tristeza enorme – disse Altenor com a voz que saia fraca e um pouco rouca – ver essa floresta que antes era um dos orgulhos do reino da lebre.

O rapaz não lhe deu muita atenção, estava andando e olhando para os lados como que procurando o lugar certo ou a trilha a se seguir.

– Me desculpe meu bom feitor – retornou a falar Altenor agora mais alto para que o outro o ouvisse – ponderei e vi que você me livrou de uma morte certeira lá atrás, e gostaria de saber o nome daquele que me veio em um momento de necessidade, garanto-lhe que quando recuperar o reino lhe serei muito grato.

O rapaz o olhou enquanto andava – Você fala muito engraçado, um engraçado bonito, mas engraçado, vamos continuar por esse caminho que logo chegaremos ao acampamento.

– Mas você não me falou o seu nome.

– Acho que isso não é o que você quer saber no momento.

– Como ass…

Quando começou a falar, Altenor foi pego de surpresa, vinte homens saíram de moitas e de cima das árvores, o rapaz que antes era o guia correu para dentro da escuridão da floresta. As coisas foram tão rápidas que nem mesmo Altenor teve tempo para poder tomar alguma ação, cordas voaram de um lado para o outro, lançaram o pescoço do cavalo e as suas patas o fazendo ficar como uma estatua que apenas relinchava de desespero.

Altenor também foi vitima das cordas que mais pareciam cobras que enrolavam em seu corpo com precisão e força, tentou se debater e forçar os braços para se livrar e pegar a espada, mas acabou sendo inútil, sentiu um puxão do lado direito e foi derrubado ao chão com violência, bateu a cabeça com tanta força no chão que desmaiou.

“Abra os seus olhos”. Quando acordou estava amarrado junto a um tronco de uma árvore, pode reparar que o seu cavalo estava preso em outra árvore e cerca de cinco crianças estavam subindo em seu dorso e pulando, a sua volta homens e mulheres andavam de um lado para o outro sempre o observando e uma fogueira queimava mais a frente.

– Igual eu lhe falei – o rapaz estava ao seu lado encostado no tronco da árvore – você fala engraçado, um engraçado bonito, mas é burro, nesses tempos não se pode confiar em ninguém – deu um leve tapa no rosto de Altenor.

– O que vocês vão fazer comigo?

– O que fazemos com todos os imundos que servem o rei – apontou para uma árvore mais a frente que tinha um galho grosso perpendicular ao chão a uma altura de pouco mais de dois metros – a forca.

– Vocês não teriam coragem de matar o seu rei.

– Já disse que você pode ser quem quiser, mas Altenor está morto e o seu corpo perdido.

– Está cometendo um erro garoto. Posso agora pelo menos saber o nome do meu carrasco?

– O nome dele é Natan – disse um homem que se aproximava, alto e forte, de cabelos loiros e uma enorme cicatriz no rosto que lhe prejudicou o olho esquerdo um pedaço do nariz e o lábio superior, mesmo quando ficava calado os seus dentes amarelados e tortos ficavam a mostra – mas ele não é o seu carrasco, sou eu.

– Você mataria o seu rei?

– Mataria até mil para poder vingar a morte do meu verdadeiro senhor, Altenor o bravo, mas aqui apenas vejo um soldado do touro que esta usando uma mentira para poder saber onde nos escondemos e abrir a boca para o que se diz rei do ocidente. Não quero a morte dessa gente, são pessoas de bem, mas agora você eu não sinto pena e apenas desejo a sua morte.

– Abra os seus olhos e veja a verdade – Altenor disse com um tom de autoridade que fez com que o outro desse um passo para trás – não vê minha armadura, não sigo as ordens do touro de sangue, sou eu Altenor o rei dos homens do ocidente, do reino da lebre!

– Você fala bonito e foi bem ensinado, mas apenas vejo uma mentira para que sejamos pegos – olhou para os outros que observavam a conversa e disse em voz alta levantando os braços – hoje pagaremos mais uma parcela da divida, hoje temos corda!

Todos os presentes começaram a gritar, um grupo preparou a corda no galho da árvore e outros desamarraram Altenor e o levaram em direção à árvore, o cavalo relinchava como que tentando alertar o erro que os outros estavam fazendo.

– Oh grande Sanvor! Como é o grande senhor das matas e florestas me ajude mais uma vez nesse momento de necessidade! – gritou Altenor enquanto era carregado – e Liluani minha rainha da beleza, se eu morrer nessa má sorte, que a minha alma vá como o vento para beijar a sua pele quente mais uma vez.

Sua voz foi praticamente abafada pela gritaria que o rodeava, em pouco tempo ele já estava em cima de um banco com a corda em volta do pescoço, mas mantinha a pose altiva e forte, se fosse para morrer, morreria como um rei.

– Traga-me a espada do nosso rei da mentira Natan – disse o homem antes de mandar que retirassem a cadeira de apoio de Altenor.

Quando Natan lhe entregou a bainha com a espada dentro o homem disse mais altos do que todos – Que a corda pague mais um pouco da divida! – a cadeira foi chutada por alguém que estava próximo e Altenor começou a se debater. O homem retirou a espada da bainha e a olhou, primeiro teve um susto e a olhou novamente com mais cuidado – Essa espada é do rei Altenor – disse ele para si mesmo e voltou à visão para o homem pendurado na corda que começava a se debater, ao olhar melhor viu o que a cegueira do ódio lhe impedia de ver melhor, ele abriu os olhos – Este homem é Altenor, o nosso rei! – gritou ele inutilmente, as pessoas gritavam mais alto pelo espetáculo.

Então aconteceu o que ninguém esperava, a árvore deu um estalo alto e o chão tremeu, o galho em que Altenor estava sendo enforcado quebrou-se como um graveto em milhares de lugares, Altenor foi ao chão seguido por uma chuva de farpas de madeiras, todos calaram de medo e permaneceram estáticos de medo, o homem do rosto marcado andou em direção aonde Altenor caiu e o ajudou a levantar, devolveu-lhe a espada e se ajoelhou.

– Salve o rei dos reis que volta dos mortos como a resposta de nossas orações – todos se ajoelharam – salve Altenor, o nosso único e verdadeiro rei! – depois todos seguiram em gritos repetindo as palavras “Salve Altenor, o nosso único e verdadeiro rei!”.

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