Um conto sobre amor e guerra – Parte Três

Olá, meu bom leitor.

Primeiramente, gostaria de pedir desculpas pelas duas semanas que fiquei afastado do blog, tive um período de auto dúvida do meu trabalho. Escrevi essa parte do conto, mas fiquei meio intrigado com ela e fiquei lendo e relendo até ter a certeza que poderia postar aqui.

O que me acalmou foi o comentário da minha namorada, que totalmente imparcial disse: pqp, posta logo isso.

Hahahaha então eu vi que alcancei o que queria, espero que gostem assim como ela gostou.

Para quem não leu as outras partes segue os links:

Parte 1

Parte 2

Tenha um ótimo ponto para ler!

Um conto sobre amor e guerra – Parte Três

Após o incidente do tronco quebrado, Altenor começou a ser visto como uma figura mística e celestial. O rei que voltou dos mortos e é amigo da morte.

Os boatos de que o rei retornou percorreram milhas com uma velocidade incrível. Da Mata do Rei, a história de Altenor passou pelos Campos Pardos a leste, as Montanhas do Pico a oeste, aos confins dos Descampados Desolados do norte e chegou até as Florestas Velhas do sul. O boato era sempre o mesmo: o rei retornou.

**

Após a batalha de dois anos atrás os camponeses do Reino da Lebre foram obrigados a fazer uma escolha: permanecer no reino e jurar lealdade ao Lorde Meriados ou fugir e viver a própria sorte fora do reino. No final das contas eles perceberam que independentemente da escolha o final seria o mesmo. Pobreza e fome.

Antes da batalha quando Altenor governava como rei, as pessoas viviam em paz, tudo prosperava e o comércio crescia espantosamente. Os ourives da Lebre eram uns dos mais requisitados. A delicadeza e a perfeição de suas joias eram apreciados em todos os lugares, até mesmo em reinos distantes.

As plantações não só alimentavam todos do reino com abundância como eram vendidos a todos os cantos. O rei, em sua total bondade, até chegava ao ponto de dar alimentos a reinos amigos quando passavam por dificuldades. Altenor era visto por todos como um dos maiores e mais respeitados, se não o maior, rei das terras do ocidente.

Mas a glória afeta os homens de maneiras diferentes. Em alguns gera admiração e respeito, mas em outros é o combustível para uma coisa pior.

Lorde Meriados era um dos lordes subalternos a Altenor. Um homem com quase quarenta anos, magro, baixo cujos cabelos negros apresentavam manchas brancas. Os seus dedos eram longos, finos e ossudos e ele gostava de entrelaçá-los enquanto falava.

Meriados era responsável pelo domínio do reino ao norte nas divisas com o Reino do Pavão, mas antes dele seu pai o governava, o Lorde Marianos, muito querido entre os seus súditos. Misteriosamente ele foi encontrado morto perto de uma nascente, sem sinais de combate, sem machucados, sem hematomas e sem sinal de que foi evenenado. Apenas o encontraram deitado imóvel ao lado da nascente em um dia de verão, sem encontrar culpados e colocando o seu filho mais velho como Lorde. Muitos dizem que tanto no dia do sepultamento do pai como no dia de sua nomeação o agora Lorde Meriados estava com um sorriso de malícia e satisfação enquanto entrelaçava os dedos.

Foi por causa dele que a região norte do reino passou a ser chamada de Descampados Desolados. A região fértil de outrora agora era um campo de podridão, fome e miséria. Depois de alguns anos ele se auto intitulou rei do norte do Reino do Touro, fazendo uma aliança com o reino do Pavão para derrotar Altenor e os outros reinos. Mas ele era astuto e maquiavélico, com a sua aliança ele foi conquistando aos poucos os lordes da lebre até sobrar apenas Altenor para defender o seu reino, que foi derrotado no campo de batalha.

Feliz com a vitória, o rei do Pavão foi deliberar com Meriados para saber como seria dividida a terra para os dois novos reinos. Em uma ação rápida e traiçoeira, o touro matou o pavão dentro do seu próprio castelo e levantou a cabeça decepada do rei pelos cabelos no salão jogando-a aos pés dos Lordes de Pavão.

– Esse era o seu rei – disse Meriados com a voz calma – agora eu sou o seu rei – sentou na cadeira do antigo rei e entrelaçou os dedos – alguém se opõem a mim?

Quando ele fez essa pergunta todos os seus cavaleiros retiraram as espadas e as apontaram para os lordes que estavam atônitos.

– Como sinal de lealdade e respeito a minha autoridade – seu sorriso era maligno – ajoelhem um por um e beijem a testa do seu antigo rei – com medo de serem mortos, os lordes ajoelharam, um por um, a frente da cabeça jogada ao chão pegando-a e beijando sua fronte. Em seguida diziam: “Salve o Rei Meriados do Reino do Touro”, com o gosto de bílis subindo a garganta.

**

Depois disso os dias foram escuros, e parecia que toda a terra havia entrado em uma noite sem alvorada, até o dia que o rei retornou dos mortos.

Os boatos chegaram depressa ao castelo de Meriados, foi em um dia nublado e frio, faltando duas semanas para o solstício de verão quando um cavaleiro entrou as pressas e tropeçando.

O arauto do rei se aproximou – O que você deseja falar de tão importante com o rei? – perguntou a figura alta e de expressão nebulosa ao cavaleiro sem fôlego – Diga aqui em meu ouvido.

Enquanto o cavaleiro falava com a voz abalada pela forte respiração, a expressão do arauto se transformava de um sorriso de zombaria para uma expressão carregada de dúvida e temor.

– Saia daqui Sr. – disse o arauto – lave-se e coma algo, hoje você fez um enorme serviço ao seu rei.

Após o cavaleiro sair, o arauto chamou o capitão da guarda – Viu aquele imundo que saiu a pouco do salão? – o capitão fez um gesto positivo com a cabeça – Mate-o, não quero que alarme ninguém com as suas histórias – o capitão saiu andando segurando o punho da espada.

Antes de falar com o seu rei, ele ponderou e decidiu que antes de qualquer coisa iria averiguar e confirmar o que lhe foi confidenciado. Ele mandou um de seus mais confiáveis servos para a Mata do Rei, deu as ordens e aguardou o seu retorno.

Passaram-se quatro dias e o seu servo não retornou, então o peso do medo lhe assolou, “já era para ele ter retornado” pensava o arauto “será mesmo que é possível?”, suas mãos suavam e ficavam frias “tenho que falar com o rei”.

Na sala de jantar, o rei Meriados estava sentado sozinho, com os dedos ossudos ele segurava uma coxa de galinha assada e a impressão que dava era a de que os dedos se entrelaçavam ao pedaço de carne de forma abominável.

– Meu senhor – disse o arauto enquanto se curvava ao lado do rei, que apenas fez um gesto com a mão livre para que ele continuasse – temo dizer que tenho uma notícia um tanto quanto estranha.

– Diga o que é diretamente e sem rodeios.

– Multidões estão se deslocando para a Mata do Rei, pessoas de todas as regiões. Todos os batedores que enviamos para a região não voltam, dizem que eles estão se armando para atacá-lo.

O rei continuou comendo sem expressar nada, ataques contra ele eram normais e em sua mente multidões deveriam ser pequenos grupos isolados procurando um lugar onde se pudesse comer pedra com lodo.

– E também há boatos de que – o arauto engoliu em seco antes de dizer – Altenor foi visto andando pela mata, dizem que ele voltou dos mortos para se vingar e que agora é amigo da morte.

O rei continuou comendo.

– O que deveremos fazer, meu bom senhor?

– Altenor? – Meriados disse para si mesmo – Altenor está vivo? – ele riu sarcasticamente.

– Acredito que não – respondeu o arauto – deve ser algum camponês que encontrou seu corpo e pegou sua armadura.

– Reúna todo o exército, primeiro faça um perímetro em volta de toda a mata e coloque fogo, depois mate qualquer um que ainda agonize com as queimaduras. Cansei dessa brincadeira de gato e rato.

O arauto ficou sem palavras por um momento – Mas senhor, não temos cavaleiros suficientes para rodear toda a mata, e se o senhor matar todos o reino se reduzirá a algumas centenas de pessoas. As multidões que estão…

– Você está me dando uma ordem ou indo contra mim? – perguntou o rei soltando a carne da mão e entrelaçando os dedos.

– Não, meu senhor – ele se encolheu com medo de que Meriados mandasse lhe matar por afronta – nunca faria algo parecido ao senhor.

– Então muito bem – Meriados transpirava loucura – não me importa se não temos cavaleiros suficientes. Pegue mulheres, idosos, crianças. Se não conseguirem segurar uma espada que cortem a mão e a amarrem no lugar, se for necessário que você também entre em combate. Só quero todos mortos. Não me importa se ficarei sem súditos, o que me importa é ter um reino e isso eu terei.

– O senhor deseja algo mais, meu rei? – as suas mãos transpiravam ainda mais de medo, agora do seu próprio rei.

– Eu quero a armadura de Altenor, para que ela seja meu troféu – Meriados entrelaçava seus dedos com mais força – E quero esse homem que a encontrou. Eu mesmo irei matá-lo, matá-lo a minha maneira.

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