Um conto sobre amor e guerra – Parte Um

Olá meu bom leitor.

Hoje vou postar o início de um conto que foi um pedido muito especial da minha namorada. Ela pediu para que eu escrevesse um texto falando sobre amor e romance, pois bem aí está.

Claro que eu não ia conseguir escrever um conto apenas falando sobre amor e romance (não consigo esse feito ainda XD) então coloquei uma guerra no meio para a coisa ficar mais legal.

Espero que gostem dessa primeira parte, estou me forçando para dar uma ênfase maior no romance é claro, espero que consiga me sair bem neste estilo de escrita.

Mais uma vez, qualquer crítica boa ou ruim, me mandem pelo e-mail: paulohcsouza@outlook.com

Tenha um ótimo ponto para ler!

Um conto sobre amor e guerra – Parte Um.

O dia amanhecia claro e seco, o vento uivava com um assobio fino e fraco que balançava os galhos superiores das árvores dando a impressão de que estavam dançando uma música lenta e melodiosa. Entre elas andava um cavaleiro solitário montado em seu cavalo.

O cavalo vinha andando como que por vontade própria. Parava, pastava, andava sem rumo para um lado e tomava o lado oposto como que cobiçando a grama mais verde e saborosa. O cavaleiro que o montava estava sentado arqueado para frente com a cabeça baixa. O corpo balançava e ia pendendo de um lado para o outro acompanhando as passadas e o balanço do dorso do animal.

O animal permaneceu vagando a manhã toda até chegar a um descampado. As árvores abriam espaço para uma clareira que formava um semicírculo torto, a grama ali era tão alta que chegava acima das patas do cavalo. Na outra extremidade da clareira duas pessoas surgiram, gritaram e acenaram. O cavalo continuou pastando e não se importando com os gritos, o cavaleiro permaneceu imóvel sobre o dorso do animal arqueado para baixo.

Um dos homens era alto, de constituição forte, cabelos negros salpicados de fios grisalhos e uma barba protuberante que lhe cobria o pescoço. O outro aparentava ser mais novo, um pouco mais baixo, mas parecia ser tão robusto quanto o mais velho, seus cabelos eram também negros e ele tinha uma barba cerrada fechada. Quando chegaram perto do cavalo, que não demonstrou medo ou apatia apenas olhou para o cavaleiro e depois para os dois homens e soltou um leve relinchado, os dois pegaram as rédeas e o guiaram para dentro da floresta com pressa.

A ombreira esquerda do cavaleiro estava amassada e havia uma mancha de sangue negro que cobria o braço quase que por inteiro.

Os dois o levaram para uma cabana nas entranhas daquela floresta, os troncos eram mais grossos e erguiam-se mais altos que o resto da floresta. Lá dentro a luz do sol entrava como lanças que iluminavam apenas o suficiente para dar ao lugar uma aparência de calmaria e mistério. O ar era mais úmido, pesado e incrivelmente reconfortante. Enquanto conversavam sobre seus próprios assuntos, os homens guiavam o cavalo em direção a uma casa de dois pavimentos construída com madeira e pedra.

**

O cavaleiro não sabia ao certo quanto tempo ficou ali. Se foram dias, semanas ou até mesmo meses, mas ele se recordava do momento em que abriu os olhos com exatidão. Ouvia uma voz doce e suave. Sentia que estava sendo guiado por aquela voz     – Abra os olhos – em pensamento, como que em um estado de nostalgia, ele respondia que não conseguia, e a voz voltava – Abra os seus olhos, meu valente cavaleiro – e assim ele foi sentindo a sua alma voltando aos poucos para o seu corpo – Abra os seus olhos – e ele abriu.

Primeiramente a claridade do local era tanta que o cavaleiro apenas via o branco, depois de um longo período ele foi se acostumando e começou a distinguir as formas que o rodeavam.

– Você abriu os olhos – ele percorreu o quarto procurando o dono daquela voz doce e suave que o guiou de volta a vida. Era de uma bela senhora, a pele era branca como a luz do luar, o rosto fino como o de uma deusa pagã da beleza, os olhos de um tom castanho claro quase esverdeado e os cabelos negros eram tão lisos que lhe caiam como um véu e nem mesmo a mais pura seda teria um caimento tão perfeito.

– Quem… – o cavaleiro não conseguiu falar, por não ter pronunciado nada há um bom período de tempo e por sentir a garganta seca.

– Não diga nada meu galante – ela disse levantando e indo a cômoda pegar um copo de água. Voltou a ele o ajudando a levantar somente a cabeça – beba um gole, e apenas um por hora, você ainda está fraco e deve repousar mais por um bom período – ele a olhava com uma admiração ímpar, que nem ele mesmo compreendia. Ela o fascinava.

Após um demorado e pequeno gole da bebida que parecia água, mas tinha um aroma de flores silvestres e um gosto peculiar, pois no início era doce como o mais bem tratado mel e no final deixava na boca um gosto saboroso de frutas vermelhas. Enquanto a bebida descia por sua garganta, ele sentia uma onda de ânimo e força o percorrer.

– Agora durma, meu nobre cavaleiro galante – ela lhe beijou a testa, e ele de súbito caiu no mais calmo e tranquilo dos sonos.

O cavaleiro sabia que os seus sonhos não duravam apenas uma noite ou poucas horas. Ele se recordava que no período que permaneceu aos cuidados daquela linda mulher ele deve ter aberto o olho por pelo menos cinco ou seis vezes, todas da mesma maneira com ela o guiando e dizendo “abra os seus olhos”. Nas vezes que abriu, ele podia ver pela janela a paisagem, duas foram à noite, uma chovia forte, outra podia se ver as lanças de luz passando pela janela e em outra, nevava.

Mas sempre que acordava as coisas aconteciam iguais. A bela estava sentada o chamando, lhe dava um gole, e apenas um, da bebida aromatizada e o beijava a testa, fazendo-o cair em um sono profundo, calmo e reparador.

– Abra os olhos – ele ouvia novamente a voz, e foi sendo guiado pela última vez – abra os seus olhos meu galante cavaleiro – ele abriu com os olhos vivos a procura daquela que o fascinava.

Ela deu a ele outro gole da bebida – Este, meu bom cavaleiro – a sua voz era tão bela que trazia uma sensação de conforto inacreditável – será a última vez que beberá do vinho de cura da casa de Sanvor, o senhor das matas e florestas da terra ocidental. Meu nome é Liluani, filha de Sanvor, e lhe concederei o direito de me fazer três perguntas, faça-as com a maior sabedoria que um mortal pode ter.

– Há quanto tempo estou aqui? – sua voz soava grave e forte, como se ele nunca estivesse enfermo.

– Há exatamente dois anos desde o dia da sua chegada.

Aquilo o pegou de surpresa, nunca havia imaginado que tinha passado tanto tempo em recuperação, ainda mais tendo poucos momentos de consciência – Minha bela benfeitora, muito tempo passei aqui, o que aconteceu com o meu povo? – disse ele sentando e a olhando com pesar.

– Não sei dizer. Infelizmente, meu pai não me conta as notícias dos mortais – ela disse com um tom de tristeza por não poder ajudar como queria, ela passou a mão no rosto do homem, ele sentiu o toque suave e percebeu que a mão dela era ligeiramente mais quente – tenho autorização para responder apenas mais uma pergunta.

– Pelo que vejo você não é uma humana – ele encostou sua mão por cima da dela que ainda estava pousada em seu rosto – não desejo mais nenhuma pergunta, apenas a maior das gratidões me vem à mente para com você e seu pai. Mas temo estar em falta com o meu povo, dois anos é um tempo demasiadamente longo e temo pelo pior para com os meus pares, lhe peço apenas uma coisa, uma última coisa antes que eu parta da casa do grande Sanvor, que reverenciarei pelo resto da minha breve vida.

– E qual seria o favor?

– Me dê um fio de seu cabelo, para que eu guarde no mais puro dos tecidos e nunca me esqueça da sua beleza que é imensurável. Digo-lhe ainda mais que de hoje em diante não olharei para nenhuma mulher, e que o meu coração mortal pertence a você. Mesmo que ele pare de bater daqui a dez anos, o meu sentimento será imortal e permanecerá como o vento, a gota de chuva, o orvalho que amanhece na pétala da rosa e o brilho da lua. Oh, bela Liluani! Se fui poupado à vida, foi para viver este momento e poder te amar – ele retirou a sua mão da dela e tocou-lhe o rosto.

– Suas palavras são belas e fortes, e digo que se fosse mortal lhe retribuiria, mas como imortal não posso, perdoa-me – ela retirou um fio negro e lhe entregou – tome este presente e nunca esqueça-me e eu nunca lhe esquecerei. Sua vida foi poupada por meu pai por um propósito que ele enxergou e eu não sei dizer. Foi-lhe dada à graça de se recuperar aqui por um motivo. Volte à vida mortal e cumpra o seu propósito. Nunca me esquecerei de suas palavras e parte do meu coração também lhe pertence.

Os dois se entreolharam por um momento que pareceu uma eternidade, rompido pela suave voz de Liluani – E você meu nobre cavaleiro, me concederia uma pergunta?

– Até mil vezes mil.

– Qual o seu nome?

Ele riu da simplicidade da pergunta, um sorriso amoroso – Me chamo Altenor, rei dos homens do ocidente do reino da lebre.

Ela o retribuiu o sorriso – Então volte meu não galante cavaleiro e sim meu mais nobre dos nobres reis mortais – beijou-lhe a testa e ele foi acometido pelo mais profundo dos sonos.

– Abra os olhos – ele acordou montado em seu cavalo andando sem rumo pela floresta, acordou assustado por ter ouvido a voz doce, e sua memória foi voltando aos poucos, lembrou-se da batalha, do ferimento e passou a mão por cima do ombro. A armadura estava danificada, mas o ombro não tinha vestígios de qualquer ferimento, então ele se lembrou de Liluani e viu que no seu cinto estava preso um pano branco com uma árvore bordada. Ao abri-la viu o fio de cabelo.

De súbito cavalgou com a maior velocidade possível para o seu reino. Passou pelo campo de batalha, pelo tempo o campo estava com a grama alta e não mais havia sinal de que ali naquele lugar tinha acontecido um massacre. Temeroso pelo que podia ter acontecido com seu povo ele cavalgou mais rápido de volta para casa.

Ao chegar à vila ele desmontou com os olhos banhados de lágrimas, pois as casas que antes eram prósperas estavam agora desoladas. Os poucos habitantes que ali permaneceram ao vê-lo chegar se esconderam de medo. As plantações que eram verdes outrora agora eram poças de lama. O castelo acima da grande colina ostentava uma bandeira de fundo negro com um touro vermelho.

– Oh que tristeza! – disse ele com amargura na voz – Grande Sanvor, se me deste a misericórdia de poder permanecer vivo, é unicamente para poder trazer a vida e prosperidade as estas terras novamente. Em resposta a sua ajuda e pelo amor de Liluani, eu Altenor trarei justiça aos fracos. Que o touro de sangue que é o arauto do mal sucumba a mim.

E assim ele galopou em direção ao castelo, sendo observado por poucos olhos curiosos que o fitavam durante a trajetória.

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